PAPELÃO

Enquanto eles se trancam em suas redações trocando tiros, os fatos que poderiam virar notícia se perdem na imensidão do anonimato.

Quem ligou a televisão na Rede Globo ou na Rede Record essa semana se surpreendeu com a atitude de seus jornalistas. Deixaram durante dez minutos de informar para trocar acusações uma para a outra e de forma quase direta. Desperdiçaram um precioso tempo para protagonizar uma das maiores deselegâncias da história da comunicação, se não a maior, pois nunca isso havia sido visto: duas empresas de comunicação, que tem o poder de influenciar por justamente serem empresas de comunicação, trocando acusações e revelando irregularidades uma da outra, para (entenda-se) os telespectadores darem algum veredicto, dizerem quem tem razão e penalizarem o culpado com o bloqueio do canal na televisão deles.

O telespectador evidentemente pode influenciar na audiência do canal, aliás nunca é demais lembrar que ele também é o dono da concessão das televisões, que são concedidas pelo Governo. E, como serviço concedido, a televisão precisa estar a serviço do público, mas não é isso que se vê, infelizmente. O que se vê é uma comunicação sem rumo, que é feita a serviço de seus proprietários. E o público? Isso é o que menos importa para alguns deles.

Ninguém aqui é inocente nessa história. A história da Rede Globo isso todo mundo já sabe. A Record já não é mais uma pequena empresa, se tornou uma emissora poderosa. Ou seja, isso é uma briga de Golias contra Golias. E nunca eles perderam tanto tempo quanto agora. De terça em diante eles perdem tempo, e eu já não assisto mais nada desses dois canais. Se é isso que esperavam.

Isso pode ser feio para as finanças… De ambas. Podem perder anunciantes, pois nenhuma empresa quer anunciar para uma empresa que comete irregularidades ou para uma empresa que age como advogada de defesa de seu proprietário, caso tanto de uma quanto da outra. Pode ser feia para a audiência: a TV Globo já não tem a mesma audiência dos anos 90, e a TV Record pode perder audiência e ter a credibilidade de seu jornalismo metralhada.

O filme de ambas queimou completamente. E as empresas que fazem comunicação de verdade precisam agir, fazer alguma coisa! A Rede Globo não precisava ter extrapolado tanto tempo em noticiar uma denúncia contra o dono da emissora concorrente. E a Rede Record não precisava usar jornalistas (que não por acaso trabalharam lá, do outro lado) e nem a sua central de jornalismo para fazer esse tipo de papel, aliás papelão.

Televisão é concessão pública, e como tal, deve voltar seus serviços ao público. Mas misturaram completamente as coisas. Os donos esqueceram disso e fazem o que querem com elas, como se fossem completamente suas. Mas não. A concessão da Globo, da Record, tanto faz, é minha, é sua, é de seu vizinho, de seu amigo, enfim, foi o governo que concedeu esse serviço a elas!

A mídia de verdade é feita por aqueles que gostam dela e amam o que fazem, e não entendo o que pessoas que nada entendem de comunicação (e não sabem conviver com ela) estão fazendo ali. A comunicação deveria ser para os comunicadores. E deles deve partir a verdadeira democratização da comunicação, e não deve ser utilizada como desculpa para ludibriar a opinião pública.

Gostaria que as novas gerações da comunicação pudessem fazer isso: uma nova ordem na comunicação. Novas caras. Novas ideias. Novos canais. Enfim, a mais completa reinvenção da comunicação, a redescoberta da arte de comunicar que se perdeu. Enquanto eles se trancam em suas redações trocando tiros, os fatos que poderiam virar notícia se perdem na imensidão do anonimato.

O episódio que lamentavelmente aconteceu essa semana é o  episódio  da comunicação que envergonha, mas não é suficiente para me fazer desistir da comunicação, pois sei que esse tipo de comunicação é minoria. E quero que eu e as mesmas pessoas que tem esse sonho da Comunicação Social tenham também um único objetivo: MUDAR TUDO ISSO. MUDAR DE VERDADE.

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