A INFÂNCIA QUE AINDA FICOU EM MIM

Hoje se comemora o Dia das Crianças. Coisa que eu fui até o início da década passada e ainda me lembro como se fosse ontem. Mas ao olhar para trás, vejo exatamente o quanto tempo passou, tanto que acabo de tomar um susto quando escrevi que a minha infância física acabou no início dos anos 2000. Como o tempo passou tão rápido o suficiente para você estar às portas dos 30 anos e sentir que aparentemente, nada mudou na sua vida. A não ser que agora você já é um adulto e formado.

Formado academicamente, mas ainda com uma vida começando a ser construída. E que ainda está em seu alicerce sem saber quando do alicerce vai sair. Hoje espero novos caminhos e sigo calculando meus passos. Sei que uma hora tudo vai avançar, mas para isso eu tenho que ser mais ativo. E não ficar só esperando.

A rua foi, sem dúvida, a minha maior escola, digamos, informal da vida na minha infância. Lá comecei a fazer arte. Lá desenhava com a ponta dos meus dedos casas, carros, ônibus, enfim, imaginava um mundo, me aproveitava da época em que a rua não tinha calçamento e fazia de lá a minha grande tela a céu aberto. A minha infância acabou no início dos anos 2000, certo? Pois foi nessa época em que pavimentaram a rua onde moro desde que nasci. A rua precisava evoluir. Eu precisava evoluir.

A rua foi a minha tela a céu aberto na infância.
A rua foi a minha tela a céu aberto na infância.

Uns 3 anos depois foi que eu entrei num centro de artes e aprendi noções de desenho e pintura. Foi na mesma época em que havia desenvolvido a minha primeira campanha publicitária aos 14 anos (tudo bem, eu era adolescente, mas vamos dar um desconto…) quando fiz 10 anúncios de uma rifa de um celular (Nokia 1100) que a escola onde eu estudava promovia para arrecadar fundos para uma família carente do Rangel.

De escola em escola e de bullying em bullying que sofria – sim, gente, sofri muito disso sem saber que isso tinha nome – fui formando a minha identidade e querendo de uma certa forma fazer a diferença, sem desanimar diante dos apelidos que alguns colegas colocavam pelo fato de eu ser reservado e avesso a bagunça.

A criança da foto começaria a ir longe... Muito longe...
A criança da foto começaria a ir longe… Muito longe… (P.S.: A colcha da foto ainda existe)

Adorei rever essa foto, de quando tinha uns meses de idade. Como coloquei na legenda, a colcha da foto ainda existe e nela posaram meus irmãos quando eram exatamente desse tamanho, bem como meu sobrinho hoje em dia. Se o destino quiser que eu construa uma nova família, adoraria que essa colcha fosse comigo.

A criança que nela aparece mal sabia que tinha um caminho de ideias para trilhar. O caminho é longo, menino. E você ainda tem algumas coisas dentro da sua cabeça para administrar e saber lidar com elas. Não vai ser fácil, mas você consegue. Mesmo que o que vier pela frente te desanime.

Olho para trás e vejo a rua onde desenhei e executei as minhas ideias na infância. Hoje a rua está pavimentada. E não está mais tranquila como outrora. Os tempos mudaram de uma forma tão radical que você nem acredita. Essa é mesmo a minha rua? Esse foi o lugar onde eu comecei a descobrir a minha identidade? Nem parece. Tudo se perdeu com o passar dos anos.

Mas é a evolução da vida e assim tenho que me acostumar. Nos próximos anos terei novos desafios e aí sim terei o que chamam de vida adulta. A minha atual ainda é de estudante, mesmo tendo terminado de estudar. Mas não tenho medo disso, até porque é o que mais desejo no momento: evoluir como pessoa.

E é com um olhar no passado que olho nesse momento para o meu futuro.

Pois quem sabe, eu veja em meus herdeiros histórias como a minha, que conto aos poucos porque é longa e complexa. Só que agora tenho papéis e lápis.

E por ter papéis e lápis ainda deixo a minha impressão de mundo e as minhas ideias. Isso ainda reflete um pouco da infância que ficou em mim.

Pois como dizia uma frase que compartilhei hoje no Facebook, o adulto criativo é a criança que sobreviveu.

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