A cidade está ali todos os dias. A gente acorda, sai de casa, atravessa ruas, espera o ônibus, passa por uma praça, entra em uma loja, encontra alguém conhecido e volta para casa. Tudo parece tão cotidiano que, às vezes, esquecemos de uma coisa bastante óbvia: nós também fazemos parte disso tudo.
Mas será que nos sentimos parte da cidade?
Eu penso nisso a partir da minha própria relação com João Pessoa.
Nasci, cresci, estudei, me formei e trabalho nesta cidade. Vi a paisagem mudar diante dos meus olhos, acompanhei transformações nas ruas, nos bairros, nos comércios e nos modos de circular. E, olhando para trás, percebo que essa relação não começou quando passei a falar sobre cidade.
Começou muito antes.
Começou quando eu ainda era criança e desenhava na rua de terra, antes mesmo de ela ser pavimentada. Naquele momento, eu provavelmente não estava pensando em urbanismo, memória ou pertencimento. Era só uma criança desenhando.
Mas aquela rua já era parte da minha formação.
É curioso perceber como algumas coisas que parecem pequenas na infância acabam explicando muito do que fazemos décadas depois. A rua que um dia serviu de espaço para desenhar também se tornou parte do repertório visual de quem passou a observar a cidade como matéria-prima para criar.
Talvez pertencer a uma cidade seja justamente isso: ter uma história que não começa no mapa.
Um endereço pode dizer onde estamos. O sentimento de pertencimento diz onde nos reconhecemos.
Durante muito tempo, é fácil imaginar a cidade como uma coisa pronta. As ruas já estão lá, os prédios já foram construídos, os bairros têm seus nomes, os monumentos ocupam seus lugares e a paisagem parece ter sido definida antes mesmo de chegarmos.
Nesse cenário, podemos facilmente assumir o papel de figurantes: pessoas que simplesmente circulam por uma cidade construída por outros.
Só que, quando olho para minha própria experiência, essa ideia não se sustenta muito.
Eu não apenas moro em João Pessoa. Eu fui sendo construído por ela enquanto também construía uma maneira de enxergá-la.
E isso acontece com qualquer pessoa, ainda que de formas completamente diferentes.
A cidade não é apenas aquilo que foi construído. É também aquilo que acontece.
E aquilo que acontece depende de gente.
Cada pessoa que ocupa uma calçada, transforma uma esquina em ponto de encontro, cria um pequeno comércio, pinta um muro, planta uma árvore, registra uma memória ou simplesmente estabelece uma rotina está produzindo alguma coisa na cidade.
Nem toda transformação urbana aparece em um projeto arquitetônico. Algumas das mais importantes acontecem em escala pequena, quase invisível.
É a padaria que vira ponto de conversa. É a praça onde alguém aprendeu a andar de bicicleta. É a rua que ganhou outra dinâmica depois que os moradores passaram a ocupar mais as calçadas. É aquela esquina que todo mundo conhece por um apelido que não aparece em mapa nenhum.
É também aquela rua de terra que um dia fez parte da infância e que, depois, deixou de ser a mesma rua.
A cidade muda. E nós mudamos com ela.
Talvez seja por isso que olhar para João Pessoa hoje carregue uma camada diferente para mim. Eu não estou olhando apenas para uma paisagem.
Estou olhando para um arquivo vivo.
Uma fachada pode ser uma lembrança. Uma árvore pode marcar uma época. Um comércio pode revelar como um bairro mudou. Um ônibus pode lembrar uma rotina. Uma calçada pode trazer de volta uma história que parecia esquecida.
A cidade vai acumulando camadas.
E nós também.
É nesse ponto que a cidade deixa de ser apenas cenário e passa a ser parte da criação.
Arte, cidade e comunicação, para mim, não são três assuntos completamente separados. São maneiras diferentes de olhar para o mesmo universo. A arte permite expressar. A cidade oferece o cenário — e muito mais que um cenário. A comunicação ajuda a fazer essas percepções circularem.
Quando desenho, escrevo ou observo alguma coisa que acontece na cidade, não estou simplesmente registrando um lugar.
Estou estabelecendo uma relação com ele.
E talvez seja aí que o pertencimento fique mais evidente.
Quem se sente parte de um lugar não precisa achar que tudo está perfeito. Pelo contrário. Pertencer também significa perceber os problemas, estranhar aquilo que mudou, questionar o que poderia funcionar melhor e se importar com o que acontece ao redor.
É impossível olhar para a própria cidade durante tantos anos sem perceber suas contradições.
João Pessoa não é uma única cidade para quem vive aqui.
São muitas.
Existe a cidade do Centro, a cidade da praia, a cidade dos bairros mais antigos, a cidade das áreas que cresceram rapidamente, a cidade de quem trabalha longe de casa, a cidade de quem passa horas no transporte, a cidade de quem conhece determinada rua desde criança.
E existe a cidade de cada um.
É por isso que gosto de pensar nos bairros como cidades dentro da cidade. Cada pedaço tem sua própria velocidade, seus hábitos, seus encontros, suas referências e suas memórias.
Eu conheço uma dessas cidades particularmente bem: aquela formada pelo lugar onde vivo, pelas ruas que atravesso e pelas coisas que observo todos os dias.
E quanto mais presto atenção, mais percebo que não sou apenas alguém passando por ela.
Estou dentro dela.
Minha rotina interfere naquele espaço. Meu trabalho nasce, em parte, das coisas que observo nele. Meus desenhos registram percepções. Meus textos transformam experiências em reflexão. Meu próprio projeto de falar sobre cidade é uma forma de participar da cidade.
Não é preciso construir um prédio, abrir uma avenida ou criar um grande projeto urbano para deixar uma marca.
Às vezes, uma pessoa deixa sua marca simplesmente porque prestou atenção.
Uma fotografia preserva. Um desenho revela. Um texto provoca. Uma conversa transforma.
A comunicação também constrói cidade.
A arte também constrói cidade.
A memória também constrói cidade.
E contar as histórias de um lugar é uma maneira de disputar aquilo que será lembrado sobre ele.
Talvez seja por isso que a pergunta inicial seja mais importante do que parece:
você se sente parte da cidade?
Não estou falando apenas de gostar do lugar onde você mora.
Estou falando de reconhecer que sua história está misturada à história dele.
De perceber que aquela rua também ajudou a formar quem você é.
De entender que, mesmo sem perceber, você também interfere na paisagem, nos hábitos, nas relações e nas narrativas que fazem aquele lugar existir.
Durante muito tempo, podemos acreditar que somos figurantes porque a cidade parece grande demais para que nossa presença faça diferença.
Mas talvez seja justamente o contrário.
A cidade é grande porque é feita de pequenas histórias.
A minha começou, entre outras coisas, em uma rua de terra onde eu desenhava quando criança. Hoje, continuo desenhando, escrevendo e observando — só que talvez tenha aprendido que o lugar onde a gente cria também cria a gente.
E isso muda completamente a relação com a cidade.
A gente deixa de apenas passar por ela.
Começa a enxergá-la.
Começa a questioná-la.
Começa a registrá-la.
Começa a criar com ela.
E, principalmente, começa a entender que não existe cidade sem gente — e não existe nossa experiência da cidade sem as marcas que deixamos nela.
Então talvez a pergunta não seja apenas se você se sente parte da cidade.
Talvez seja:
que parte da cidade existe porque você existe?
Porque uma cidade não é apenas o lugar onde a vida acontece.
É também uma das coisas que nós, todos os dias, ajudamos a construir.










