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56 mensagens em 23 dias: o zoológico dos cassinos clandestinos

De plataformas “pegando fogo” a coelhinhos que distribuem dinheiro, mensagens suspeitas usam animais, promessas de ganhos e até referências religiosas ...
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Se existisse um zoológico especializado em promessas de dinheiro fácil, ele já teria uma coleção respeitável. Tigrinho, Coelhinho e sabe-se lá quantos outros bichos disputariam espaço nos cartazes, todos com a mesma missão: convencer você de que chegou a hora de ganhar dinheiro.

Nesse zoológico, as plataformas estão sempre “pegando fogo”, as casas estão “pagando muito” e os prêmios parecem cair do céu. Só tem um detalhe: ninguém explica quem está pagando tanta generosidade.

Até 12 de outubro, já bloqueei 56 mensagens suspeitas recebidas desde 20 de setembro de 2026. São 23 dias corridos de monitoramento, atravessando a data da medida provisória que proibiu nacionalmente as casas de apostas no Brasil, pelo menos as que haviam sido regulamentadas pelo governo.

Enquanto isso, as mensagens das casas de apostas de origem duvidosa continuam chegando, mudando de remetente, de promessa e de endereço.

Mas a questão não se limita às apostas. Existe outro problema que merece atenção: o uso do meu número de telefone para receber mensagens que nunca solicitei. Como é que eles conseguem?

Lista de mensagens SMS recebidas com remetentes numéricos e prévias de textos sobre apostas e prêmios em dinheiro

Pegando fogo: quem está queimando dinheiro?

Captura de tela de aplicativo de mensagens mostrando um número bloqueado e uma mensagem de spam com propaganda de cassino

“Pegando fogo!” é uma das expressões usadas para anunciar plataformas em alta. A casa estaria fervendo, o jogo estaria quente e os ganhos estariam explodindo.

Pela propaganda, não existe cassino ruim. Todos estão em alta, todos pagam muito e todos parecem ter descoberto uma fórmula secreta para distribuir dinheiro.

Só esqueceram de explicar por que precisam procurar desconhecidos por SMS para contar a novidade.

A linguagem tenta criar urgência, curiosidade e a sensação de que existe uma oportunidade imperdível. Se a plataforma está pagando tanto, por que ficar de fora?

É justamente esse impulso que a mensagem tenta explorar.

Uma plataforma estar “pegando fogo” não significa que esteja pagando o que promete. E, nesse zoológico, quem pode acabar queimando o próprio orçamento é quem acredita que a próxima rodada vai resolver a vida financeira.

Pagando muito. Para quem?

Captura de tela de aplicativo de mensagens exibindo contato bloqueado e mensagem de spam oferecendo ganho financeiro com link suspeito

Outra expressão recorrente é “pagando muito” ou “pagando tudo”. A plataforma estaria generosa, distribuindo prêmios e fazendo a alegria de quem entra para jogar.

É quase uma instituição de caridade, só que com caça-níqueis, links suspeitos e uma insistência incomum em anunciar sua generosidade para quem nunca pediu informação alguma.

Algumas mensagens prometem rodadas grátis. Outras afirmam que um bônus já foi liberado ou que determinada quantia está disponível para resgate. Há até supostas devoluções de Pix e prêmios esquecidos.

Em uma delas, o dinheiro já teria caído na conta. Em outra, bastaria entrar no link para aproveitar um benefício. Tudo parece simples: o dinheiro está lá, esperando pelo destinatário.

Que maravilha! O departamento financeiro do zoológico aparentemente trabalha com uma regra revolucionária: primeiro promete, depois manda clicar.

O problema é que uma mensagem não comprova a existência de saldo algum. Quando uma oferta inesperada vem acompanhada de urgência e de um endereço encurtado, a atitude mais segura é desconfiar.

Coelhinho, Tigrinho e a fauna da fortuna

Captura de tela de aplicativo de mensagens exibindo uma mensagem suspeita sobre bônus de cassino e uma notificação para salvar o número remetente

No Dia de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro, chegou uma mensagem com a frase: “A BÊNÇÃO DE N. SRA. APARECIDA CHEGOU!”.

Na sequência, veio o anúncio de que o “Coelhinho” havia liberado 110 rodadas grátis e que R$ 638,20 já teriam caído na conta. O texto terminava com uma ordem curta: “Entra agora!”.

A combinação merece atenção. A mensagem junta uma referência religiosa, um personagem simpático, uma quantidade generosa de rodadas e um valor específico para criar a impressão de que existe uma recompensa real esperando por quem recebe o SMS.

Não dá para provar apenas pela captura que a data religiosa foi escolhida deliberadamente para montar a campanha. Mas a coincidência é impossível de ignorar: justamente no dia dedicado à santa, uma mensagem usa a ideia de uma bênção como chamariz para uma oferta relacionada a jogos.

E o Coelhinho não está sozinho.

O Tigrinho já virou personagem conhecido desse universo. Ao redor dele, aparecem nomes de jogos, mascotes e outras referências que parecem disputar espaço numa arca de Noé patrocinada por promessas de ganhos.

Se continuar assim, logo teremos um safári completo: cada bicho com seu bônus, cada plataforma com sua promessa e cada link conduzindo a uma aventura que ninguém deveria começar sem saber onde vai parar.

A piada tem limite, porém. O uso de animais e personagens simpáticos pode tornar a abordagem mais familiar e menos ameaçadora. A mensagem deixa de parecer uma oferta financeira arriscada e assume a aparência de uma brincadeira, um presente ou uma oportunidade divertida.

A embalagem pode ser lúdica. O risco financeiro, não.

O zoológico também troca de fantasia

Em outras mensagens registradas, o cassino sequer aparece no nome do remetente.

Uma campanha chegou identificada como Bellawhite, com descrição relacionada a reformas residenciais. Outra usou o nome ESTILOSA, associado a roupas. Os textos falavam em devolução de prêmio ou dinheiro disponível por Pix, enquanto as prévias dos links apontavam para ambientes relacionados a cassinos online.

Uma empresa de reformas que anuncia um prêmio não resgatado? Uma marca de roupas que oferece dinheiro sem depósito?

Parece que o zoológico ganhou também um departamento de figurinos.

Essas divergências não identificam automaticamente os responsáveis pelas campanhas, mas são sinais importantes para desconfiar. Um nome comercial, uma descrição convincente ou um selo visual não tornam verdadeira a promessa apresentada.

Os links encurtados, como os divulgados pelo Bitly e pelo Rebrandly, acrescentam outra camada de opacidade: o destinatário não vê de imediato o endereço final. Por isso, não vale clicar apenas para matar a curiosidade.

E quem autorizou o uso do meu número?

Aqui entra uma questão que vai além dos cassinos: a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a LGPD.

O número de telefone de uma pessoa identificada ou identificável é um dado pessoal. Coletar, armazenar, compartilhar e utilizar esse número para disparar mensagens são operações de tratamento de dados sujeitas à legislação.

Isso significa que não basta uma empresa, plataforma ou intermediário ter acesso a uma lista de telefones para poder utilizá-la de qualquer maneira.

A LGPD exige que o tratamento tenha uma base legal válida e respeite princípios como finalidade, adequação, necessidade, transparência e segurança. Se a operação se apoiar no legítimo interesse, essa justificativa também precisa ser compatível com a situação concreta, com as expectativas razoáveis da pessoa e com seus direitos fundamentais.

É importante fazer uma distinção: a LGPD não proíbe automaticamente toda mensagem comercial não solicitada, nem exige consentimento em absolutamente todas as situações. Existem diferentes bases legais previstas na lei. Mas elas não são uma autorização irrestrita para disparar publicidade sem critérios ou utilizar dados de origem desconhecida.

No caso dessas mensagens, as perguntas são inevitáveis:

  • De onde veio meu número de telefone?
  • Quem é o responsável pelo tratamento desse dado?
  • O número foi obtido diretamente de mim ou compartilhado por terceiros?
  • Qual é a base legal que justificaria esse uso?
  • Como posso saber quem está por trás da campanha e exercer meus direitos?

As mensagens não oferecem respostas claras. Em vez de identificar de maneira transparente quem promove a oferta, apresentam remetentes numéricos ou nomes comerciais aparentemente desconectados do conteúdo, além de links que escondem o destino final.

Não é possível concluir, apenas pelas capturas, qual foi a origem do número ou quem é o responsável por cada disparo. Isso exige investigação. Mas é justamente essa falta de transparência que torna necessária a apuração.

Se o número foi obtido ou utilizado sem uma base legal válida, ou em desacordo com os princípios e direitos previstos na LGPD, o tratamento pode configurar uma infração à lei. A situação merece ser investigada, não normalizada como se receber propaganda indesejada fosse um preço inevitável por ter um celular.

O problema não é simplesmente alguém ter meu telefone. É alguém utilizá-lo para tentar me conduzir a uma oferta suspeita sem explicar de onde veio o dado, quem responde pelo envio ou por que essa abordagem está sendo feita.

O cassino não precisa esperar pelo futebol

A discussão sobre apostas no Brasil costuma girar em torno do futebol: patrocinadores, clubes, campeonatos, resultados e publicidade esportiva. Mas as mensagens que venho recebendo apontam para outro foco.

Elas destacam rodadas grátis, bônus, saldos fictícios e jogos de cassino online. Não precisam falar da próxima partida nem esperar pelo apito inicial. O jogo pode estar disponível a qualquer hora, diretamente no celular.

Essa disponibilidade permanente é uma diferença importante. A pessoa pode repetir rodadas, perseguir uma vitória ou tentar recuperar o dinheiro perdido sem depender de um evento esportivo.

Nenhuma dessas 56 mensagens falava sobre futebol, campeonato ou qualquer coisa relacionada. Era sempre cassino, era sempre tigrinho ou qualquer outro animal do zoológico.

Quando a promessa é sempre a próxima recompensa, o risco é entrar num ciclo de tentativas que compromete dinheiro destinado a outras despesas. O impacto pode chegar à alimentação, às contas domésticas, ao aluguel e às relações familiares.

O dinheiro utilizado nas apostas pode deixar de pagar alimentação, aluguel, contas básicas ou compromissos assumidos com a família. Em situações mais graves, a tentativa de recuperar perdas pode resultar em empréstimos, uso de crédito e acúmulo de dívidas.

Uma pesquisa comportamental do Procon-SP, divulgada em fevereiro de 2026, apontou que 39,7% dos apostadores entrevistados relataram ter se endividado depois de começar a utilizar sites de jogos e apostas online.

Já dados divulgados pela Agência Brasil estimaram em R$ 62,5 bilhões as perdas líquidas das famílias brasileiras com bets em 2025.

Não é correto atribuir todo o endividamento das famílias a uma única causa. Mas também não dá para ignorar como apostas repetidas, perdas acumuladas e a tentativa de recuperar prejuízos podem agravar a situação financeira de quem joga.

O cassino não precisa convencer alguém de que entende de futebol. Basta sugerir que existe dinheiro esperando, um prêmio esquecido ou um bônus que desaparecerá se não for utilizado imediatamente.

A proibição não fez as mensagens desaparecerem

A Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026, estabeleceu a proibição nacional da exploração, da oferta, da intermediação e da publicidade das apostas de quota fixa. O cronograma anunciado pelo governo previa que os sites e aplicativos deixassem de funcionar a partir de 6 de outubro.

Mesmo assim, as mensagens suspeitas continuaram a chegar depois da medida.

O Ministério da Justiça informou ter encaminhado mais de 13 mil sites de apostas ilegais para bloqueio entre 25 de setembro e 6 de outubro. A dimensão da operação ajuda a entender que combater esse mercado não é tão simples quanto retirar um endereço do ar. Domínios podem mudar, remetentes podem trocar de nome e novas campanhas podem aparecer.

O monitoramento pessoal não prova que todas as 56 mensagens tenham sido enviadas pelo mesmo operador, nem permite atribuir cada campanha a uma organização específica. Mas documenta uma sequência persistente de abordagens com características semelhantes: promessas financeiras, urgência, links encurtados e referências a jogos de cassino.

Há, portanto, duas frentes que precisam ser observadas: a continuidade da divulgação suspeita de jogos e o possível tratamento irregular de dados pessoais para alcançar destinatários que não solicitaram essas mensagens.

Uma frente não substitui a outra. Bloquear um endereço não explica como o número de telefone foi parar naquela lista. E investigar o uso do dado não elimina a necessidade de apurar as ofertas, os destinos dos links e os responsáveis pelas campanhas.

Quem está pagando a conta dessa brincadeira?

A ironia é que, nessas mensagens, todo mundo parece ganhar. O Tigrinho está em alta, o Coelhinho distribui rodadas, a plataforma está pegando fogo e a casa não para de pagar.

Só não aparece o personagem mais importante da história: quem fica com o prejuízo quando a promessa não se concretiza.

Por trás dos mascotes e das frases empolgadas, existe uma tentativa de levar pessoas a ambientes de jogo por meio de ofertas que não solicitaram. O dinheiro fácil é o chamariz; o clique é o objetivo.

E, antes mesmo de qualquer aposta, existe outra pergunta: quem decidiu que meu número de telefone poderia ser usado para essa abordagem?

Se o cassino precisa se apresentar como uma bênção, uma devolução de Pix ou uma casa que está “pagando muito”, vale perguntar quem está tentando convencer você a entrar — e por quê.

Já são 56 mensagens bloqueadas em 23 dias. O zoológico digital pode continuar inventando bichos, mascotes e slogans. Eu continuo fechando a jaula: denunciar, bloquear e não clicar.

Porque, quando o Tigrinho e o Coelhinho começam a distribuir dinheiro por SMS, o problema não é apenas a promessa de ganho. É também a tentativa de invadir sua atenção, explorar sua confiança e usar seus dados pessoais sem a transparência que a lei exige.

A fauna pode ser fictícia. As mensagens, o número de telefone utilizado e os riscos são bem reais.

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