Onde termina sua intenção e começa a leitura do outro?
Pergunta gerada pela inteligência artificial e respondida por mim
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis de responder em um ano de #SetePerguntas. Essa é uma pergunta que vive exatamente na fratura entre criar e comunicar. Só de pensar onde termina sua intenção e começa a leitura do outro, você se assusta e pensa: onde está esse limite tão delicado? Pode nem parecer, mas esse limite existe, e muitas vezes é mais próximo do que você pensa que pode estar. Talvez eu possa dizer que a resposta mais honesta talvez seja: não existe uma linha. Existe uma zona de tensão que nunca se resolve completamente. E nada é mais tenso do que o limiar do seu entendimento e da intenção de quem está vendo.
Quando você cria, carrega intenção. Essa intenção pode ser um gesto, uma escolha de cor, um enquadramento, uma palavra. Mas no momento em que isso sai de você e chega ao outro, começa uma segunda criação que você não controla. O outro lê com o arquivo inteiro da vida dele. Com as dores, as referências, os dias bons e ruins, os traumas visuais, as nostalgias. A obra surge como processo aberto, não como objeto fechado. Ela não é entregue, ela é ativada. Cada leitura é uma nova instância dela existindo no mundo. E assim uma criação se reinventa, para além da sua intenção. É onde a leitura do outro começa.
Poderia dizer que é como se a obra que você criou fosse um ente dissociado de você mesmo. Ela passa a representar a si mesma, e isso comunica intenções que vão muito além do que a intenção real que você teve ao criar a sua obra. E tem algo libertador nisso. Você não precisa – e provavelmente não conseguiria – controlar todas as leituras. O que você pode fazer é criar com consciência suficiente para que a obra tenha uma espinha dorsal, uma identidade própria que resista às projeções mais distantes sem se fechar para as interpretações mais ricas. E talvez esteja aqui a riqueza do que você cria: ela vai se reinventando constantemente a partir de cada olhar.
Para um criador visual, isso fica ainda mais interessante, porque a imagem é propositalmente polissêmica. Ela não tem sintaxe rígida como a frase. Ela convida múltiplas entradas ao mesmo tempo. A obra como processo aberto, não como objeto fechado. Ela não é entregue, ela é ativada. Cada leitura é uma nova instância dela existindo no mundo. E de fato, é como se a sua obra continuasse a ser construída, mesmo depois de finalizada por você. Quando ela é disponibilizada ao público, ela segue o seu caminho de construção, agora com as impressões de quem a vê. Uma fotografia dos anos 70 significa algo diferente hoje não porque ela mudou fisicamente, mas porque o mundo ao redor dela mudou, e quem a olha também.
Então talvez a pergunta mais adequada não seja “onde termina minha intenção”, mas até onde eu quero que ela vá. Você pode construir âncoras – contexto, legenda, sequência, narrativa – que orientam a leitura sem aprisionar. Ou pode deixar deliberadamente lacunas para que o outro co-crie com você. Criar é assim: você começa, quem vê, dando a sua impressão e a sua intenção, continua a criação, que passa a impressão de sim, ser essa coisa inacabada, mas que continua o tempo todo por meio de olhares e intenções. A intenção do criador define o ponto de partida. A leitura do outro define o destino. E o espaço entre os dois é onde a obra de fato existe.
#SetePerguntas
O primeiro post do dia no Site Josivandro Avelar. Um tema por semana, com uma pergunta por dia sobre assuntos relacionados a arte, cidade e comunicação. Pergunte o que quiser, eu posso lhe responder.











