Esta série poderia ser apenas um único texto para celebrar os 38 anos que completei no dia 24 de setembro. Era uma quinta-feira, justamente o dia da semana em que escrevo crônicas sobre a cidade. Mas, no meio de tantas reflexões, acabei percebendo que havia muito mais a dizer do que caberia em uma única publicação.
Comecei pensando na cidade onde nasci, na cidade onde cresci, na cidade que quero ver crescer e naquela que não quero viver. Quatro cidades que, na verdade, são uma só: João Pessoa.
E, no fim, me peguei pensando em como eu não seria apenas um mero figurante dessa cidade.
Afinal de contas, quando você constrói um ecossistema de comunicação independente, com sua própria linha editorial, suas ideias, seus projetos e seu mundo, de certa forma você também está construindo uma parte desse lugar. Você passa a interferir na maneira como ele é percebido, contado e discutido.
A cidade deixa de ser apenas o cenário onde você vive. Ela também passa a fazer parte daquilo que você produz.
Mas existe uma história por trás disso.
Quem abriu as portas para você depois que saiu da faculdade? Quem garantiria que alguém que veio de onde você veio teria oportunidades facilmente? Quem estaria disposto a apostar nas suas ideias antes que elas tivessem algum reconhecimento?
Porque não basta ter capacidade quando as oportunidades não chegam.
E essa é uma contradição que merece ser discutida: muitas vezes, uma cidade que tanto fala sobre desenvolvimento, criatividade e empreendedorismo não consegue oferecer espaço para que pessoas diferentes construam alguma coisa. Não necessariamente por falta de talento, mas porque ainda existe uma lógica em que status, sobrenome, relacionamentos e reconhecimento prévio parecem valer mais do que aquilo que alguém efetivamente sabe fazer.
Você pode ter ideias, disposição, repertório e capacidade de realizar. Mas, se não estiver nos círculos considerados importantes, talvez precise esperar muito mais do que deveria.
E não estou falando de quem veio de fora. Estou falando também de quem nasceu aqui, cresceu aqui e, mesmo assim, precisou descobrir como entrar pelas portas que pareciam reservadas a outras pessoas.
Porque existe uma diferença entre pertencer geograficamente a uma cidade e ter espaço para construir alguma coisa nela.
Eu poderia ter desanimado diante disso. Poderia ter esperado que alguém reconhecesse minha capacidade, que uma oportunidade aparecesse ou que alguma porta finalmente se abrisse.
Mas decidi construir as minhas.
Foi assim que comecei a desenhar meu próprio caminho na comunicação, trabalhando com sites, redação, redes sociais, identidade visual e tudo aquilo que me permitisse transformar ideias em projetos concretos.
Construí meu espaço, minha presença e minha maneira de trabalhar. Criei uma linha editorial, desenvolvi projetos próprios e fiz da independência uma necessidade que acabou se transformando em escolha.
Não foi porque o caminho estava pronto. Foi justamente porque não estava.
E existe uma coisa que aprendi nesse processo: a melhor maneira de provar sua capacidade é mostrando aquilo que você sabe fazer de melhor.
Não adianta esperar que alguém lhe conceda importância para começar a construir alguma coisa. Às vezes, é preciso começar mesmo sem plateia, sem convite e sem garantia de reconhecimento.
Foi o que fiz.
E, de alguma maneira, isso também mudou minha relação com João Pessoa.
Passei a olhar para a cidade não apenas como alguém que nasceu nela, mas como alguém que produz sobre ela, observa suas transformações, questiona suas escolhas e imagina outras possibilidades.
É por isso que me incomoda tanto quando a cidade parece pertencer a poucos.
Quando determinados sobrenomes aparecem nas placas e nas homenagens como se a história tivesse sido escrita exclusivamente por eles. Quando algumas pessoas parecem ter mais legitimidade para decidir os rumos da cidade simplesmente porque chegaram antes, herdaram posições ou ocupam espaços de influência.
Reconhecer quem veio antes não significa entregar a essas pessoas o direito de decidir quem pode vir depois.
A cidade não é uma propriedade familiar.
E não é preciso ter um sobrenome importante para participar da sua construção.
Talvez seja justamente isso que eu queira dizer ao completar 38 anos: não estou aqui esperando que alguém me autorize a fazer parte.
Estou aqui porque nasci aqui, porque cresci aqui, porque trabalho aqui, porque crio aqui e porque continuo acreditando que este lugar pode ser muito mais do que aquilo que algumas pessoas decidiram que ele deveria ser.
Não preciso concordar com tudo o que acontece na cidade para gostar dela. Não preciso aceitar suas limitações para reconhecer que faço parte dela. E não preciso abandonar o lugar onde construí minha história para reivindicar o direito de imaginar outro futuro.
Afinal, se a cidade é feita de pessoas, também é feita daquilo que essas pessoas conseguem realizar.
Das ideias que colocam em circulação, dos negócios que abrem, das histórias que contam, dos espaços que ocupam e das oportunidades que criam para outras pessoas.
Eu não quero ser lembrado apenas por ter vivido em João Pessoa. Quero que aquilo que construo também tenha alguma coisa a dizer sobre ela.
E isso não depende de uma placa com meu nome, de um sobrenome reconhecido ou de uma autorização concedida por quem acredita ter chegado primeiro.
Depende de continuar fazendo.
Eu estou aqui. E sou parte disso.
Não sou figurante da história de uma cidade que também é minha.
Não preciso pedir licença para imaginar o futuro dela.
Aos 38 anos, continuo abrindo portas. As minhas e, quem sabe, algumas para quem também descobriu que não precisa esperar um convite para começar.
Porque João Pessoa não pode ser apenas a cidade de quem já tem lugar garantido.
Ela também precisa ser a cidade de quem ainda está construindo o seu.










