Talvez esse seja o grande paradoxo de completar 38 anos falando sobre a cidade onde nasci.
Eu envelheci.
João Pessoa também.
Eu já não sou a pessoa que nasceu em 1988. A cidade também já não é aquela que existia naquele setembro.
E nenhuma das duas deveria ser.
Porque envelhecer não significa simplesmente acumular anos. Significa acumular experiências, mudanças, perdas, descobertas, contradições e novas possibilidades.
A cidade faz exatamente a mesma coisa.
Ela cresce, se transforma, ganha novos moradores, perde referências, muda seus deslocamentos, inventa novas formas de trabalhar, consumir, criar e ocupar seus espaços.
E não existe como barrar isso.
Eu não posso lutar contra o avanço da minha própria idade. Posso até fingir que os 38 não chegaram, reclamar que o tempo passou rápido ou tentar permanecer mentalmente em alguma versão anterior de mim.
Mas os 38 chegaram.
E tudo bem.
Porque eu não quero voltar a ter 18 anos. Quero ter 38 sendo tudo aquilo que os 37 anos anteriores me permitiram construir.
Com a cidade deveria ser igual.
Não quero que João Pessoa volte a ser a cidade de 1988. Quero que ela seja capaz de carregar 1988 dentro dela e, ainda assim, continuar avançando.
O passado pode explicar a cidade.
Não pode impedir o futuro.
Talvez por isso eu ache tão estranho quando alguém tenta transformar uma determinada versão de João Pessoa em modelo definitivo. Como se fosse possível dizer: “daqui para frente, não mexa mais”.
Não existe isso.
O que precisa acontecer, vai acontecer.
A cidade vai mudar.
Novas pessoas vão chegar.
Novos bairros vão se consolidar.
Novos negócios vão surgir.
Novas tecnologias vão alterar a maneira como vivemos.
Novas gerações vão olhar para aquilo que hoje parece indispensável e perguntar por que fizemos daquele jeito.
E, provavelmente, algumas coisas que hoje considero importantes também serão vistas de outra maneira.
Isso não é fracasso.
É evolução.
Aos 38 anos, talvez eu esteja finalmente entendendo que amadurecer não é tentar conservar tudo aquilo que funcionou um dia.
É saber reconhecer o que precisa permanecer e ter coragem de deixar o restante mudar.
Por isso, quando penso nas quatro cidades que existem dentro de mim — a cidade onde nasci, a cidade onde cresci, a cidade que quero ver crescer e a cidade que não quero viver — percebo que elas nunca foram quatro cidades.
Sempre foram uma só.
João Pessoa.
A mesma cidade que me recebeu em 1988.
A mesma cidade que eu vi mudar.
A mesma cidade que me ensinou a olhar para as ruas, para os ônibus, para os bairros, para as pessoas e para as histórias que existem em cada canto.
A mesma cidade que ainda me incomoda o suficiente para eu querer que ela seja diferente.
E talvez essa seja a melhor forma de comemorar meus 38 anos.
Não tentando parar o tempo.
Nem tentando fazer a cidade parar comigo.
Mas aceitando que nós dois envelhecemos — e que envelhecer pode ser uma forma de evoluir.
Eu completei 38 anos.
João Pessoa também carrega quase quatro décadas a mais de história desde aquele setembro em que eu cheguei.
Seguimos mudando.
Seguimos aprendendo.
Seguimos nos tornando outra coisa.
E que bom.
Porque o que precisa acontecer, vai acontecer.
A cidade vai continuar mudando.
Eu também.
E talvez crescer seja justamente aprender a não ter medo disso.










