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38 anos: a cidade que eu não quero viver

Descubra por que, para mim, João Pessoa precisa superar a lógica de cidade fechada para evoluir, abraçar novas ideias e construir um futuro mais ...
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A cidade que eu não quero viver é aquela que parece um mundo fechado.

Um lugar onde poucos podem entrar, poucos podem decidir e poucos sobrenomes parecem ter autorização para escrever a história.

É a cidade em que determinadas famílias aparecem em placas, prédios, avenidas, equipamentos e homenagens como se a própria cidade tivesse dono.

E talvez o problema nem esteja em reconhecer quem fez parte da história. Uma cidade precisa ter memória. Precisa saber quem veio antes.

O problema começa quando a memória vira propriedade.

Quando alguns sobrenomes passam a se comportar como se fossem proprietários da cidade — e qualquer pessoa que chega depois precisasse pedir licença para participar dela.

Eu não quero viver numa cidade assim.

Não quero uma João Pessoa em que mudar seja tratado como ameaça.

Não quero uma cidade em que toda transformação precise passar pelo filtro de quem já estava aqui antes.

Não quero uma cidade que confunda tradição com imobilidade.

Porque uma cidade viva é justamente aquela que permite que novas pessoas, novas ideias, novos negócios, novas expressões culturais, novas tecnologias e novas formas de ocupar seus espaços apareçam.

A cidade não pode ser um condomínio com porteiro.

Ela precisa ser uma praça.

E praça pressupõe encontro.

Pressupõe conflito, inclusive. Gente diferente ocupando o mesmo espaço, defendendo ideias diferentes, criando coisas diferentes e disputando os rumos daquele lugar.

É assim que uma cidade cresce.

Por isso, eu não tenho medo de uma João Pessoa diferente daquela que conheci quando era criança.

Tenho mais medo de uma João Pessoa que tenha medo de mudar.

Porque uma cidade que se fecha em torno de poucos sobrenomes, poucas ideias e poucos interesses pode até preservar uma aparência de estabilidade. Mas estabilidade não é necessariamente evolução.

E eu quero evolução.

Quero uma cidade que consiga olhar para sua história sem ficar presa a ela.

Que reconheça seus nomes importantes sem transformar esses nomes em donos.

Que preserve sua memória sem transformar memória em barreira.

Que consiga receber quem chega, abrir espaço para quem cria e permitir que novas histórias sejam escritas nas mesmas ruas onde tantas outras já aconteceram.

A João Pessoa que eu quero viver precisa superar essa lógica de cidade fechada.

Precisa entender que o futuro não pertence a sobrenome nenhum.

O futuro pertence à cidade.

E uma cidade só evolui de verdade quando mais gente pode participar da construção desse futuro.

Talvez seja essa a João Pessoa que eu procuro aos 38 anos.

Não uma cidade perfeita.

Nem uma cidade sem problemas.

Mas uma cidade aberta.

Uma cidade que não tenha medo de mudar.

Uma cidade que consiga olhar para o que foi, entender o que é e, principalmente, decidir o que quer ser.

Porque, no fim das contas, eu não quero outra cidade.

Eu quero que a cidade que é minha desde o nascimento continue tendo coragem de ser outra.

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