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Quem vai cuidar do ônibus que liga a Paraíba?

Descubra por que os principais candidatos ao Governo da Paraíba ignoram a reformulação do transporte coletivo intermunicipal na campanha.
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A Paraíba tem seis candidatos ao Governo do Estado. Mas, quando a discussão chega aos nomes que concentram a disputa, três aparecem com muito mais frequência: Lucas Ribeiro, Cícero Lucena e Efraim Filho.

E é justamente deles que quero cobrar uma resposta.

Não sobre estrada.

Não sobre duplicação de rodovia.

Não sobre construir mais uma ponte, mais um viaduto ou abrir mais uma ligação entre dois pontos.

Quero falar de ônibus.

Mais especificamente, daquele ônibus que sai de uma cidade e chega a outra carregando gente que trabalha, estuda, consulta um médico, visita a família, resolve a vida e volta para casa.

Porque existe uma ausência muito difícil de ignorar na eleição deste ano:

nenhum dos três apresentou uma proposta propriamente dita para reformular o sistema de transporte intermunicipal da Paraíba.

Não é uma proposta tímida.

Não é uma proposta incompleta.

Não é uma proposta escondida em uma nota de rodapé.

É ausência mesmo.

Os planos podem mencionar transporte e mobilidade. E mencionam. Mas mencionar mobilidade não é apresentar um projeto de transformação do transporte intermunicipal.

E isso é especialmente curioso porque, quando o assunto é mobilidade, parece que estamos sempre falando de uma coisa: ligar lugares para os carros chegarem mais rápido.

Mais estrada.

Mais ligação.

Mais acesso.

Mais infraestrutura para circulação.

Mas e o cidadão?

Como ele circula?

Porque uma política de mobilidade não deveria ser apenas uma política de conexão entre pontos no mapa. Deveria ser também uma política sobre como as pessoas chegam a esses pontos.

E aí o ônibus aparece.

Ou deveria aparecer.

Em 2024, quando a discussão era sobre a Prefeitura de João Pessoa, o transporte coletivo municipal foi um dos grandes campos de batalha da campanha.

Foi debate.

Foi promessa.

Foi proposta.

Foi discussão sobre linhas, tarifa, integração, operação e futuro do sistema.

Foi o maior auê.

E algumas das soluções apresentadas pareciam, na minha leitura, ter mais potencial para empurrar o sistema ainda mais para o buraco do que para tirá-lo de lá.

Mas tudo bem.

O debate existia.

Agora estamos em 2026.

A eleição é para governador.

E quem governa o estado tem responsabilidade direta sobre o transporte intermunicipal.

Então fica a pergunta:

onde está o debate?

Ninguém toca.

Ninguém fala.

Ninguém apresenta uma reformulação.

Ninguém parece se importar.

É como se o ônibus municipal fosse assunto de campanha e o ônibus intermunicipal fosse assunto proibido.

E isso fica ainda mais estranho quando olhamos para aquilo que os três mais competitivos estão propondo para quem trabalha com transporte individual.

Lucas Ribeiro anunciou IPVA Zero, a partir de 2027 e sob critérios a serem regulamentados, para carros e motocicletas utilizados por motoristas de aplicativo. Cícero Lucena também apresentou uma proposta de IPVA Zero para motoristas e motociclistas de aplicativos. Efraim Filho defende IPVA Zero para quem trabalha por aplicativo e para motos de até 200 cilindradas, além de carros com mais de dez anos de fabricação.

A proposta pode ter sua justificativa econômica e social para quem utiliza o veículo como ferramenta de trabalho ou como o meio de ir até ele.

Mas existe uma pergunta inevitável:

e quem depende do transporte público?

Porque há algo revelador nessa escolha de prioridades.

Para o carro de aplicativo, existe proposta.

Para a motocicleta de quem trabalha, existe proposta.

Para aliviar o custo de quem coloca um veículo individual na rua, existe proposta.

Mas para reformular o sistema coletivo que conecta as cidades paraibanas…

nada.

É uma contradição que merece ser colocada na mesa.

Se o Estado quer reduzir o custo da mobilidade individual, ótimo.

Mas quem vai reduzir a ineficiência da mobilidade coletiva?

Quem vai olhar para o sistema intermunicipal e dizer: isso aqui não pode continuar funcionando como funcionava décadas atrás?

Porque as cidades mudaram.

A população mudou.

Os deslocamentos mudaram.

Os horários de trabalho mudaram.

As universidades cresceram.

Novos bairros surgiram.

Novos polos comerciais e de serviços apareceram.

A Região Metropolitana de João Pessoa mudou.

A Paraíba mudou.

O ônibus mudou quanto?

Essa é a provocação.

O sistema intermunicipal urbano atravessa décadas com uma estrutura que, em muitos aspectos, parece congelada no tempo.

E talvez seja justamente por isso que ninguém queira mexer nele.

Será que o transporte intermunicipal virou intocável?

Por que é tão fácil reajustar a tarifa e tão difícil discutir uma nova configuração de linhas?

Por que conseguimos anunciar benefício fiscal para quem trabalha com carro ou moto, mas não conseguimos apresentar um projeto de transformação para quem depende do ônibus?

Por que mobilidade é frequentemente tratada como sinônimo de construir ligações e facilitar o deslocamento dos veículos, enquanto o transporte coletivo aparece como uma espécie de detalhe operacional?

E tem mais.

Quem mora em Bayeux e trabalha em João Pessoa depende desse sistema.

Quem mora em Santa Rita e estuda na capital depende dele.

Quem mora em Cabedelo e trabalha em outra cidade depende dele.

E isso se repete em diferentes regiões da Paraíba.

O transporte intermunicipal não é uma questão secundária.

É infraestrutura social.

É o que permite que uma pessoa tenha acesso a emprego, educação, saúde, comércio, cultura e serviços que não estão necessariamente na cidade onde ela mora.

Então não basta falar em uma Paraíba conectada.

É preciso explicar como o paraibano vai se conectar.

E aqui não existe situação ou oposição que escape da pergunta.

Lucas Ribeiro representa a continuidade do grupo que governa o estado.

Cícero Lucena chega com sua experiência administrativa e sua passagem pela Prefeitura de João Pessoa.

Efraim Filho se apresenta como alternativa ao grupo que está no poder.

Perfeito.

Agora vamos falar de ônibus.

Não do ônibus municipal.

Não apenas do ônibus da capital.

Do ônibus que liga uma cidade à outra.

Porque estrada é importante.

Obra é importante.

Ligação viária é importante.

Mas uma política de mobilidade que prioriza a construção de caminhos para carros e deixa em segundo plano quem precisa do transporte coletivo pode até conectar lugares.

Não necessariamente conecta pessoas.

E talvez seja essa a pergunta que a campanha esteja evitando:

quem vai ter coragem de mexer no transporte intermunicipal da Paraíba?

Não estou perguntando quem promete passagem mais barata.

Estou perguntando quem vai propor um sistema diferente.

Quem vai redesenhar linhas.

Quem vai discutir frequência.

Quem vai discutir integração.

Quem vai discutir fiscalização.

Quem vai discutir concessões.

Quem vai discutir tarifa.

Quem vai discutir qualidade.

Quem vai discutir o futuro.

Porque, até agora, os três nomes que mais aparecem na disputa já encontraram espaço para falar de estrada, carro, moto e aplicativo.

Só não encontraram espaço para falar do ônibus que leva o paraibano de uma cidade para outra.

E isso também é uma escolha.

Ou, pelo menos, é uma ausência que precisa ser explicada.

Afinal, se governar é escolher prioridades, qual é a prioridade do transporte intermunicipal na Paraíba?

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