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Bloqueio criativo: por que é sempre bom voltar a falar sobre ele?

Bloqueio criativo não desaparece para sempre. Entenda por que ele volta, o que pode revelar sobre nossa rotina e como transformar a pausa em parte do ...
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Se tem um assunto que parece voltar de tempos em tempos para bater na porta de quem cria, é o bloqueio criativo. E olha que já falei sobre isso tantas vezes. Já pensamos em inspiração, rotina, descanso, repertório, medo de errar, excesso de cobrança e aquela famosa página em branco que parece encarar a gente de volta. Então por que falar novamente? Porque o bloqueio muda. Nós também mudamos. Aquilo que travava a criação alguns anos atrás pode não ser o mesmo que trava hoje. Às vezes é falta de ideia. Às vezes é cansaço. Às vezes são ideias demais disputando espaço ao mesmo tempo. E tem dias em que simplesmente não sai nada. Talvez o erro esteja justamente em imaginar que, depois de entender o bloqueio uma vez, nunca mais teremos que conversar com ele.

O bloqueio não é sempre falta de criatividade

Existe uma associação quase automática entre bloqueio criativo e falta de criatividade. Como se, quando não conseguimos produzir, isso significasse que deixamos de ser criativos.

Não é tão simples.

Uma pessoa pode ter repertório, experiência e dezenas de ideias e ainda assim não conseguir transformar nada disso em alguma coisa concreta.

O problema pode estar em outro lugar.

Cansaço.

Excesso de estímulos.

Pressão por resultado.

Medo de produzir algo ruim.

Comparação.

Rotina desorganizada.

Ou simplesmente a necessidade de fazer uma pausa.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais vale voltar ao assunto: porque cada bloqueio pode estar dizendo uma coisa diferente.

A gente também muda a forma de criar

Quando começamos a criar, talvez pensemos que criatividade é produzir constantemente. Depois descobrimos que existe uma diferença enorme entre estar produzindo e estar realmente criando.

A rotina muda.

As responsabilidades mudam.

O repertório aumenta.

As referências se transformam.

Até aquilo que antes parecia interessante pode deixar de fazer sentido.

Por isso, não existe uma fórmula definitiva para desbloquear a criatividade.

Uma técnica que funcionou ontem pode ser inútil hoje.

Uma caminhada pode resolver um problema em determinado momento. Em outro, talvez seja justamente sentar e insistir por mais alguns minutos que faça a ideia aparecer.

Criatividade também é adaptação.

Talvez o bloqueio esteja pedindo outra pergunta

Em vez de perguntar apenas “como faço para voltar a criar?”, talvez seja interessante perguntar:

“Por que estou tentando criar desse jeito?”

Essa mudança parece pequena, mas pode revelar bastante coisa.

Será que você está criando porque tem algo a dizer?

Ou porque precisa alimentar uma agenda?

Está desenhando porque quer experimentar?

Ou porque sente que precisa entregar alguma coisa?

Está escrevendo porque encontrou uma ideia interessante?

Ou porque está tentando reproduzir aquilo que funcionou para outra pessoa?

Nem todo bloqueio precisa ser vencido imediatamente.

Alguns precisam ser compreendidos.

Criar também inclui ficar sem criar

Existe uma pressão enorme para transformar qualquer pausa em produtividade. Se você não está produzindo, precisa estudar. Se não está estudando, precisa pesquisar. Se não está pesquisando, precisa organizar ideias.

Até o descanso parece precisar apresentar resultados.

Só que criação não funciona como uma linha de montagem.

Às vezes, ficar olhando pela janela faz parte.

Andar pela rua sem registrar nada faz parte.

Tomar um café sem transformar a experiência em conteúdo também faz parte.

Conversar.

Observar.

Não fazer absolutamente nada.

Tudo isso pode alimentar o repertório que aparecerá depois.

No tripé arte–cidade–comunicação, essa percepção é fundamental. A cidade continua oferecendo imagens, sons, personagens e situações mesmo quando não estamos produzindo sobre ela. A arte não deixa de existir porque não estamos criando. E a comunicação não precisa transformar cada instante da vida em postagem.

Por isso continuamos falando sobre bloqueio criativo

Talvez a melhor resposta para a pergunta inicial seja bastante simples: voltamos a falar sobre bloqueio criativo porque ele faz parte da própria experiência de criar.

Não é uma fase que acontece uma única vez.

Ele reaparece quando a rotina muda.

Quando assumimos novos projetos.

Quando estamos cansados.

Quando nossas referências já não nos satisfazem.

Quando estamos tentando encontrar uma nova voz.

E cada retorno pode ensinar alguma coisa.

Talvez hoje o bloqueio esteja pedindo descanso.

Amanhã pode pedir repertório.

Depois de amanhã, coragem.

E em outro momento pode simplesmente não significar nada além de um dia em que a ideia não veio.

Tudo bem.

Nem toda página precisa ser preenchida imediatamente.

Nem toda ideia precisa nascer sob pressão.

E talvez criar melhor também seja aprender a reconhecer quando insistir e quando deixar a cabeça respirar.

Porque falar novamente sobre bloqueio criativo não significa que ainda não aprendemos.

Significa que continuamos criando.

E quem continua criando inevitavelmente encontra, de vez em quando, uma porta fechada.

A questão é descobrir se precisamos arrombá-la, esperar que ela se abra ou perceber que existe outra porta logo ao lado.

E fica aqui a provocação: quando você trava, está realmente sem criatividade — ou está apenas tentando criar alguma coisa que, neste momento, sua cabeça ainda não quer produzir?

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