A NOVELA DA TELENOVELA

Uma crônica sobre a influência que a telenovela ainda exerce na sociedade, usando aqui um exemplo de família. Que parece mudar de hábitos à medida que a tecnologia permite escolher.

Ultimamente a minha mãe tem visto pouca telenovela. Efeitos de uma mudança de hábitos que talvez nem ela sentiu quando meu irmão instalou um sinal de televisão por assinatura. Volta e meia ela está lá, à procura de um filme, na maioria das vezes os filmes de faroeste que uns dois canais que passam filmes mais antigos passam. Ela aprendeu a gostar de filmes de faroeste com a minha avó. Nunca mais havia os visto com o passar dos anos e a disponibilidade das tecnologias que ela possuía. Agora com uma condição melhor de vida e com a possibilidade que a televisão por assinatura oferece, ela pôde assistir a esses filmes (e outros perdidos que ela descobre no zapear dos canais).
 
Engraçada a vida, a tecnologia permite que hoje você assista a uma obra gravada há 30, 40, 60 anos atrás. Ou até mesmo as telenovelas de 20 anos atrás que o Viva reprisa. Essas a minha mãe não assiste, são mais os meus irmãos mais velhos que curtem. Não pela graça de uma história que já acompanharam e já conhecem de cor e salteado; mas pela nostalgia de uma época que viveram com intensidade.
 
Semana passada, a minha mãe comprou uma dessas revistas de televisão, somente para ver o que teria de tão “bombástico e extraordinário” na novela das oito (quer dizer, das nove, Avenida Brasil) nesta semana.
 
Engraçadas as revistas especializadas em televisão. A parada de ônibus que eu uso para ir ao Centro (e de lá chegar até a faculdade) fica em frente a uma livraria que vende revistas e expõe jornais e principalmente essas revistas. Em todas elas, o destaque da telenovela das oito (quer dizer, nove horas…) na capa, sempre com alguma coisa que aconteceria na novela nas semanas seguintes. Nada atrai tanto os leitores (o público-alvo que consome as revistas) do que a novela das nove horas.
 
Mas já que citamos a telenovela em questão e esse é o tema deste texto, principalmente no que diz respeito ao hábito dos brasileiros em prestar atenção nessas histórias e como elas viraram um elemento da cultura (podem os críticos mais radicais chamarem de inútil, mas é uma cultura), vamos voltar aonde eu estava: ao hábito da minha mãe mesmo. Raramente ela assiste à novela das 18 horas. Por causa disso, não vamos nos estender muito a essa parte. Vamos pular para a das 19.
 
A novela das 19 horas exibe uma história considerada leve, engraçada até, mas com vários estereótipos das celebridades e das empregadas domésticas. A minha mãe a acompanha, sim, acompanha. E volta e meia está sempre cantarolando o tema de abertura da novela.
 
Ao que interessa… As novelas das 20 horas. Essa semana o SBT trocou de telenovela. Trocou a história mais intensa de Corações Feridos por uma versão brasileira da novela infantil Carrossel, uma história argentina que se tornou famosa no Brasil a partir de sua versão mexicana. É cedo para dizer se ela gostou da trama. Mas não é do público-alvo dela. Posso considerar por assim dizer que pela óbvia razão do público-alvo, é mais fácil as crianças gostarem mais e gerarem o feedback que a emissora espera. Mas a história pode atrair os adultos também, afinal o slogan da novela deixa bem claro isso: “A novela que vai unir a família brasileira”.
 
A novela das nove
 
Pouca coisa mudou de 20 anos para cá: a telenovela das 21 horas ainda é a que atrai mais audiência entre todas as telenovelas exibidas no país. Apesar de a audiência proporcional ter caído (e hoje em dia as razões para isso não estão na televisão, e sim na própria TV por assinatura por onde minha mãe vê os faroestes ou no computador por onde escrevi este texto), ela ainda atrai o público de uma forma tal que as pessoas quando comentam sobre telenovelas, não falam de outra coisa.
 
O cerne de toda telenovela é acompanhar o desenrolar de uma história a qual nem eu estou conseguindo entender. Fui pesquisar o enredo da telenovela para tentar ao menos isso. É mais ou menos assim como está na Wikipedia:

1999. Genésio é um viúvo solitário e pai de Rita, uma menina doce e meiga, este, então, casa-se com Carminha, uma mulher humilde e simplória, mas um demônio de ambição e maldade em forma de gente, que com a ajuda de Max, seu amante, aplica um golpe em Genésio, que acaba morrendo atropelado acidentalmente pelo craque de futebol Tufão em plena Avenida Brasil, no centro do Rio de Janeiro. Para ficar como única herdeira, Carminha – ainda contando com a ajuda de Max – abandona a enteada em um lixão. Lá, é explorada por Nilo e recebe o afeto de Lucinda.

Para no fim chegar em uma segunda fase (toda novela tem isso). E seria mais ou menos por aí que o público quer saber exatamente o que vai acontecer:

2012, época atual: Nina cresceu e se torna uma excelente chef de cozinha, na Argentina, ela perde seus pais e resolve voltar ao Brasil para iniciar seu plano de vingança, abandonando seu namorado e suas duas irmãs. Ela conhece Ivana, irmã de Tufão, pela internet e consegue ser contratada pela família deste, assim aproximando-se para vingar-se de Carminha. Carminha agora é uma esposa exemplar casada com Tufão, que conseguiu separar da cabeleireira Monalisa, o verdadeiro amor de Tufão (…)

…E por aí vai. Moendo e remoendo deste enredo todas as histórias paralelas que uma telenovela sempre tem, a trama central desta telenovela chega até aqui:

Rita, agora como, Nina passa a conviver com a família de Tufão, porém descobre que Jorginho, filho de Tufão e Carminha, é seu amor de infância, ficando então dividida entre o amor e a vingança contra sua ex-madrasta Carminha.

A ideia é simples: criar uma expectativa em cima desta trama central. É o que vai prender os telespectadores. É o que vai criar essas expectativas neles. Todos querem saber o desenrolar dessa trama. E vão acompanhando isso por sete, oito, nove meses. Um último capítulo de uma novela das nove costuma chegar entre 40 e 60 pontos de audiência. Esta novela está prevista para acabar entre novembro e dezembro deste ano.
 
E mesmo que a minha mãe assista a novela das nove, ela volta e meia é interrompida por algum telefonema. De alguém que precisa tratar algum assunto de venda e tal. Mas mesmo assim ela consegue acompanhar a trama (nem sei como, as revistas da TV e os resumos que a minha irmã lê e costuma comentar com a minha mãe devem ajudar). Meu outro irmão nesse instante está na faculdade onde ele estuda. E pelo visto só eu que estou no meu quarto com o som ligado. À exceção de hoje que precisava dessa observação para escrever o texto. À exceção de três vezes por semana que eu assisto aulas à noite na faculdade.
 
E no momento que discutíamos justamente sobre telenovela na aula de Cultura Brasileira, era o momento em que a própria telenovela Avenida Brasil batia seu recorde de audiência desde a estreia (no dia 26 de março de 2012). Obteve 42 pontos de média (em audiência domiciliar segundo as aulas de Mídia). Para a maioria das pessoas, reflexo do sucesso da mesma. Para mim, estudante de publicidade, isso significará outra coisa: GRP, custo por mil, etc. Quanto maior a audiência, mais valorizado fica o intervalo comercial da mesma. Fica mais atraente para qualquer marca anunciar ali.
 
Esse é o pouco dos antigos hábitos que ainda sobrevivem na família muito em relação à mídia, em especial a telenovela. Apesar dessas mudanças de hábitos, não acredito, francamente, que principalmente essa parte da cultura de todo brasileiro mude. Isso ainda deve persistir por um bom tempo, até quando, não sei, isso o tempo dirá.
 
É como eu disse, os mais críticos podem chamar de inútil, mas é uma cultura. O fato de eu não acompanhar telenovelas não me dá o direito de dizer que “ah, é uma cultura inútil, perda de tempo e tal”. É o que as pessoas gostam. É com aquilo que elas mais se identificam. E identidade é uma coisa difícil de mudar.
 
É como minha mãe dizia: “Só em novela mesmo…”.

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