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A cidade como cenário da criação

Descubra como transformar o espaço urbano em inspiração e participe ativamente da rotina transformando o seu entorno através da arte e comunicação.

A cidade está ali antes da gente chegar.

As ruas já existem, os prédios já estão de pé, os caminhos já foram traçados, as pessoas já inventaram seus próprios jeitos de ocupar cada esquina. Mas isso não significa que a cidade esteja pronta.

Talvez seja justamente aí que comece a criação.

Eu não olho para a cidade apenas como cenário. Olho como quem procura alguma coisa.

Uma história numa parede. Uma combinação de cores numa fachada. Uma conversa atravessada na calçada. Um caminho que mudou. Uma lembrança que reaparece quando passo por determinado lugar.

As minhas experiências miram a cidade porque é nela que muita coisa acontece antes mesmo de virar ideia.

E talvez criar seja uma forma de devolver alguma coisa para esse lugar.

Existe uma diferença enorme entre estar na cidade e ser parte dela.

Você pode morar em uma rua durante anos e continuar sendo apenas alguém que passa por ela. Pode conhecer os caminhos, os horários, os problemas, os atalhos. Mas também pode começar a interferir no que acontece ao redor.

Não estou falando necessariamente de grandes intervenções urbanas.

Às vezes é uma imagem. Um texto. Uma fotografia. Um desenho. Um projeto. Uma conversa. Uma marca. Uma ideia publicada na internet depois de nascer observando alguma coisa que aconteceu na rua.

A cidade entra na criação e a criação volta para a cidade.

É uma espécie de conversa.

E eu não quero ocupar nela o papel de figurante.

Porque figurante aparece, mas não interfere na história.

Quem quer ser parte ativa precisa aceitar uma coisa meio incômoda: fazer parte também significa modificar.

Toda cidade tem regras visíveis e invisíveis. Tem lugares onde você é convidado a entrar, lugares onde parece que não deveria estar, comportamentos esperados, caminhos considerados normais e uma série de pequenas convenções que aprendemos sem nem perceber.

E talvez criar seja uma maneira de mexer um pouco nisso.

Na linguagem de quem cresceu com internet, fóruns, comunidades online e cultura digital, talvez dê para chamar isso de hackear o sistema.

Não no sentido de destruir tudo.

No sentido de encontrar outra possibilidade.

Se a cidade diz “é assim que se usa este espaço”, experimentar outra utilização.

Se a comunicação diz “é assim que essa mensagem deve ser contada”, encontrar outra linguagem.

Se a rotina diz “você passa por aqui sem olhar”, parar e observar.

Se o mercado espera determinado comportamento, construir uma trajetória que não cabe perfeitamente na caixa.

Hackear, nesse caso, é perceber que sistemas não são necessariamente imutáveis.

E talvez essa seja uma das funções da criação: encontrar brechas.

A arte pode abrir uma. A comunicação pode abrir outra. A própria cidade oferece várias, o tempo inteiro.

É por isso que o cenário importa tanto.

Porque eu não crio apesar da cidade.

Eu crio também por causa dela.

O que vejo, escuto, atravesso, lembro e experimento vai entrando nesse repertório. A cidade deixa marcas na criação, enquanto a criação tenta deixar alguma marca de volta.

No fim, talvez seja isso que significa querer pertencer.

Não é simplesmente dizer “eu faço parte daqui”.

É perguntar:

“O que eu estou fazendo para que este lugar também tenha um pouco de mim?”

Porque quem quer apenas assistir fica na plateia.

Quem quer fazer parte entra em cena.

E quem quer modificar a história começa, de algum jeito, a hackear o roteiro.

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