Essa série especial termina, mas talvez essa pergunta precise continuar.
Será que esta cidade é mesmo minha ou eu preciso pedir licença?
Pergunto isso a todas as gerações que chegaram antes de mim.
Aos que tiveram poder.
Aos que ainda têm.
Aos que emprestaram seus sobrenomes para ruas, avenidas, praças, prédios e equipamentos públicos.
Aos que herdaram não apenas patrimônio, mas também influência.
Aos que vieram antes e ajudaram a construir João Pessoa — e aos que, depois deles, continuam acreditando que construir a cidade significa também decidir quem pode participar dela.
Eu reconheço a história.
Mas história não é escritura de propriedade.
O fato de um sobrenome estar gravado numa placa não significa que a cidade pertença àquele sobrenome.
A rua pode carregar o nome de alguém que morreu há décadas.
Mas quem atravessa essa rua hoje também faz parte da história dela.
Quem nasceu aqui depois.
Quem chegou de outro lugar.
Quem abriu um pequeno negócio.
Quem criou um projeto.
Quem desenhou alguma coisa.
Quem escreveu.
Quem fotografou.
Quem pegou ônibus.
Quem ocupou uma praça.
Quem reclamou.
Quem inventou uma solução.
Quem simplesmente acordou, saiu de casa e foi viver a própria cidade.
Todos nós escrevemos João Pessoa.
Eu nasci aqui.
Não pedi licença.
E não deveria precisar pedir para continuar fazendo parte.
A cidade não pode ser uma herança privada passada de sobrenome em sobrenome.
Ela é um patrimônio coletivo.
E isso significa que cada geração precisa ter o direito de acrescentar alguma coisa.
Talvez seja justamente esse o incômodo de quem acha que a cidade deveria permanecer como era: novas pessoas chegam querendo escrever capítulos que não foram autorizadas pelos autores anteriores.
Mas é assim que uma cidade continua viva.
Uma cidade que só permite que os mesmos sobrenomes escrevam sua história acaba virando um livro com páginas em branco reservadas para os outros.
Eu quero outra coisa.
Quero uma cidade em que o meu sobrenome não precise estar numa placa para que eu possa dizer que ela também é minha.
Porque ela é.
Assim como é de quem nasceu antes de mim.
De quem nasceu depois.
De quem chegou.
De quem ficou.
De quem ainda vai chegar.
Aos 38 anos, talvez essa seja uma das coisas que eu tenha mais clareza para dizer:
eu não preciso pedir licença para imaginar o futuro da cidade onde nasci.
E você também não.
A cidade não é propriedade de quem veio antes.
A cidade é uma construção permanente.
E agora é a nossa vez de colocar alguma coisa nela.










