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38 anos: a cidade que nasceu comigo

Reflexão sobre os 38 anos de idade e a trajetória de João Pessoa, explorando as transformações urbanas, memórias e os contrastes da capital paraibana.
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Hoje, 24 de setembro, completo 38 anos. E talvez não exista maneira melhor de falar sobre essa nova idade do que falar sobre a cidade que nasceu comigo.

Ou melhor: sobre a cidade onde eu nasci, cresci, trabalho, crio, observo e continuo escolhendo ficar.

Quando cheguei ao mundo, João Pessoa estava vivendo a ebulição do final dos anos 1980. Um mês antes do meu nascimento, em agosto de 1988, uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus tomou as ruas e colocou a cidade em estado de tensão. O protesto foi um daqueles momentos em que a população deixou de apenas reclamar para ocupar o espaço público — e a pressão ajudou a produzir mudanças no sistema de transporte, incluindo a criação da SETUSA.

Eu nasci, portanto, em uma cidade que já estava dizendo que alguma coisa precisava mudar.

E existe uma ironia ainda maior quando olho para o presente. Hoje, os herdeiros políticos de quem estava no comando daquela cidade e ajudou a produzir as condições que levaram à revolta aparecem novamente falando em mudança, como se a cidade tivesse acabado de ser inventada. Como se não houvesse passado. Como se quem governa, administra ou influencia uma cidade não tivesse também responsabilidade pelo caminho que ela percorreu.

Mas cidade tem memória.

E eu também.

Mas não era só João Pessoa que estava em ebulição.

O próprio Brasil estava no meio de uma mudança de época.

No dia em que nasci, os Jogos Olímpicos de Seul estavam chegando à primeira semana de competições. E naquele mesmo 24 de setembro aconteceria uma das provas mais famosas da história do esporte: a final dos 100 metros rasos.

O canadense Ben Johnson venceu Carl Lewis em 9s79, estabeleceu um novo recorde mundial e parecia ter acabado de escrever uma página definitiva da história olímpica. Só que aquela história duraria pouco. Dois dias depois, Johnson seria desclassificado por doping, perderia a medalha de ouro e o recorde seria anulado. Carl Lewis, que havia terminado em segundo, ficaria com o ouro.

É uma coincidência que gosto de carregar comigo.

No dia em que eu nasci, aquilo que parecia definitivo não era.

Aquilo que parecia ser a história ainda precisava ser revisto.

E talvez isso diga alguma coisa sobre a cidade, o país e até sobre a vida.

Porque faltavam apenas onze dias para o Brasil promulgar a Constituição de 1988.

Eu nasci em 24 de setembro. Em 5 de outubro, o país ganharia uma nova Constituição, encerrando juridicamente uma etapa da transição entre a ditadura e a democracia e estabelecendo uma nova base institucional para o país.

Nasci, literalmente, onze dias antes de uma nova ideia de Brasil entrar em vigor.

Não é pouca coisa para quem passou a vida olhando para comunicação, cidade, comportamento e transformação.

Eu nasci em uma cidade que protestava.

Nasci em um país que estava mudando de Constituição.

Nasci em um dia em que uma corrida de cem metros parecia definir quem era o homem mais rápido do mundo — até descobrirmos que aquela história não valia.

Talvez eu tenha chegado ao mundo com uma pequena desconfiança em relação às coisas que parecem definitivas.

E isso ajuda a explicar a maneira como olho para João Pessoa.

Porque cidade também é uma narrativa que está sempre sendo reescrita.

Nasci num hospital da região central de João Pessoa, o Hospital Edson Ramalho. Na época, associado à Polícia Militar; hoje, Hospital do Servidor General Edson Ramalho. E existe uma ironia pessoal nessa história: eu não nasci ali porque tivesse parentes na Polícia Militar. Também não havia uma tradição familiar de servidores públicos que explicasse aquela escolha.

Simplesmente nasci ali.

Quase quatro décadas depois, moro no Rangel.

E essa é outra maneira de perceber como uma cidade muda sem necessariamente trocar de lugar.

Quando eu era mais novo, o Rangel parecia longe de tudo. Centro, praia, comércio, serviços: tudo parecia exigir deslocamento. Havia uma sensação muito clara de periferia, mesmo estando dentro da própria João Pessoa.

Hoje, essa percepção mudou.

O Rangel já não está mais tão longe de tudo. A cidade avançou, cresceu, ocupou espaços, abriu novos caminhos e fez com que aquilo que antes parecia uma borda passasse a estar praticamente no meio do mapa.

Eu também mudei.

A cidade também.

E talvez seja justamente aí que começa a conversa sobre os meus 38 anos.

Porque eu consigo enxergar pelo menos quatro João Pessoas diferentes dentro da mesma cidade.

Existe a João Pessoa onde eu nasci: aquela que já fervia antes mesmo de eu conseguir saber o que era uma cidade.

Existe a João Pessoa onde eu cresci: a cidade das ruas que eu atravessei, dos ônibus que acompanhei, das mudanças que vi acontecerem diante dos meus olhos e dos lugares que ajudaram a construir a pessoa que sou.

Existe a João Pessoa que eu quero ver crescer: mais inteligente, mais acessível, mais criativa, mais humana, mais conectada com quem vive nela.

E existe a João Pessoa que eu não quero viver.

A cidade que naturaliza problemas.

A cidade que se acostuma com o improviso.

A cidade que trata determinadas pessoas como figurantes e determinadas regiões como se fossem menos importantes.

A cidade que olha para o futuro repetindo as mesmas soluções do passado e depois chama isso de desenvolvimento.

O mais interessante — e talvez o mais incômodo — é que nenhuma dessas quatro cidades está em outro lugar.

Todas são João Pessoa.

E eu faço 38 anos dentro dessa contradição.

Nasci numa cidade que protestava por mudanças. Cresci vendo essa cidade se transformar. Passei a trabalhar olhando para ela não apenas como cenário, mas como parte daquilo que produzo. E chego a uma nova idade querendo continuar aqui, mas sem aceitar que ficar signifique simplesmente me conformar com qualquer cidade que decidam construir por mim.

Talvez amadurecer também seja isso: perceber que a cidade onde você nasceu não precisa ser exatamente a cidade onde você quer viver.

Mas também perceber que, se você escolheu continuar nela, existe uma responsabilidade em imaginar, provocar e construir a diferença.

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