A cidade que eu quero ver crescer é aquela que entende que o futuro não é uma ameaça à sua história.
É justamente o contrário.
João Pessoa precisa pensar no futuro para continuar sendo aquilo que sempre foi: uma cidade evoluída, diferente, capaz de mudar de forma sem perder aquilo que a torna reconhecível.
A cidade de 1988 não pode ser o modelo da cidade dos próximos anos.
Ela já não serve mais.
Não porque tenha sido uma cidade ruim. Mas porque uma cidade não pode permanecer parada enquanto as pessoas, os hábitos, a tecnologia, a economia, os deslocamentos e as próprias necessidades urbanas mudam.
Existe uma diferença enorme entre preservar a memória e transformar o passado em projeto de futuro.
Eu gosto da memória da cidade. Gosto de lembrar como eram as ruas, os ônibus, os bairros, os lugares que mudaram de função ou simplesmente desapareceram. Gosto de reconhecer aquilo que permaneceu.
Mas não quero morar em uma fotografia de João Pessoa.
E às vezes parece que existe quem queira.
Há quem olhe para determinadas épocas da cidade com uma nostalgia tão grande que transforma aquele passado em uma espécie de modelo perfeito. Como se em algum momento João Pessoa tivesse encontrado uma fórmula definitiva para funcionar e tudo que veio depois fosse apenas decadência.
Só que aquela cidade nunca foi perfeita.
Ela já tinha seus problemas, suas desigualdades, seus congestionamentos, suas limitações, seus bairros esquecidos, suas disputas e suas contradições.
E existe uma maneira muito simples de perceber isso: aquela João Pessoa tinha outra escala.
Em 1988, a cidade ainda estava muito distante da dimensão que alcançou hoje. Agora, João Pessoa já se aproxima de 1 milhão de habitantes.
Não dá para pensar uma cidade desse tamanho com a mesma cabeça de quase quatro décadas atrás.
Não dá para projetar o transporte de amanhã imaginando os deslocamentos de 1988.
Não dá para discutir ocupação urbana como se os bairros ainda estivessem separados pelas mesmas distâncias.
Não dá para pensar comunicação, cultura, trabalho, mobilidade, espaços públicos e tecnologia como se a cidade tivesse parado no tempo.
Uma cidade que cresce precisa aprender a crescer junto.
E talvez seja justamente isso que eu desejo para João Pessoa: que ela não tenha medo de ser diferente amanhã.
Afinal, ser diferente não é uma novidade para ela.
João Pessoa sempre foi uma cidade em transformação.
Eu nasci quando ela fervia nas ruas por causa do transporte. Cresci vendo seus espaços mudarem. Vi o Rangel deixar de parecer tão distante e se aproximar do centro de uma cidade que se espalhou. Vi novas formas de comunicação surgirem, novos modos de trabalhar, criar e ocupar a cidade.
E continuo olhando para tudo isso com a mesma inquietação.
A cidade que eu quero ver crescer não é uma cidade que apaga a João Pessoa que existiu.
É uma cidade que aprende com ela.
Porque memória serve para lembrar de onde viemos.
Não para decidir até onde podemos ir.
Aos 38 anos, eu não quero uma cidade presa aos meus primeiros anos de vida.
Quero uma cidade que tenha coragem de ser irreconhecível para o meu eu de 1988.
Isso, para mim, também é evolução.










