A gente publica, atualiza o feed, confere os números. Curtidas sobem, comentários aparecem, o algoritmo decide quem vê. E então? O post desce, some do radar, vira dado numa métrica semanal. A pergunta que não fazemos é: o que fica depois que o alcance evapora?
Tem uma obsessão contemporânea com performance — quantos viram, quantos clicaram, quanto tempo ficaram. É compreensível: as plataformas foram desenhadas para isso. Mas esse foco exclusivo no imediato transforma cada postagem numa peça descartável, substituível pela próxima. É como construir uma casa onde tudo é parede provisória.
O que me interessa é pensar as redes sociais não apenas como vitrines de agora, mas como arquivos involuntários de quem somos. Cada post é um fragmento. Isolado, pode parecer banal — uma foto, uma frase, um link compartilhado. Mas no conjunto, ao longo de meses e anos, essas pequenas decisões vão compondo algo maior: um retrato do pensamento em movimento.
Já voltei em perfis antigos meus e encontrei ideias que tinha esquecido completamente. Não viralizaram, não geraram nada na época. Mas estavam lá, esperando. Às vezes você precisa de distância temporal para reconhecer padrões, obsessões recorrentes, linhas de raciocínio que só fazem sentido quando vistas de longe.
Isso muda a relação com o que se posta. Se você encara cada publicação como parte de um arquivo pessoal — não só um disparo para o feed —, começa a escolher diferente. Não necessariamente “melhor” ou “mais sério”, mas com outra consciência. Você se pergunta: eu vou querer reler isso daqui a três anos? Isso representa alguma coisa além do momento?
Claro, nem tudo precisa ter essa pretensão. Mas quando tudo vira efêmero, quando nada é feito para durar, perde-se uma camada. As redes deixam de ser espaço de construção e viram só espaço de circulação.
O interessante é que as próprias plataformas sabem disso. Facebook te manda “memórias”, Instagram ressuscita stories antigos, Twitter (ou X, enfim) tem aquela função de ver seus primeiros tweets. Elas sabem que há valor no passado, mas ainda estruturam tudo para privilegiar o novo. A contradição está aí.
Talvez o caminho seja assumir essa dupla função por conta própria: postar pensando no agora e no depois. Deixar rastros intencionais. Usar hashtags próprias, criar séries recorrentes, nomear arquivos como quem organiza gavetas. Pequenos gestos de curadoria que facilitam o retorno.
Porque a verdade é que você vai voltar. Nem que seja só você mesmo, daqui a um tempo, tentando lembrar quando começou a pensar sobre alguma coisa. E aí, o que vai encontrar? Só posts otimizados para viralizar e que envelheceram mal — ou pedaços genuínos de processo, ideias cruas, perguntas sem resposta?
O post passa. A memória fica. Mas só se você construir espaço para ela.











