Você se sente livre trabalhando para si mesmo? Qual é o conceito de liberdade criativa que você não consegue encontrar numa agência ou veículo?
Pergunta feita por este editor
Há 16 anos eu criei um blog. Esse blog evoluiu para um site e só foi possível porque só aqui que eu consigo exercer aquilo que eu chamo de liberdade. Afinal, liberdade não pode ser sinônimo para outra coisa. Já basta tanta gente tentando ressignificar essa palavra para tentar definir a própria liberdade ou a liberdade dos donos dos veículos de comunicação para os quais trabalham. O dono do veículo de comunicação é aquele que mais se sente livre de fazer o que quiser. Quem trabalha para ele só obedece, afinal, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Você simplesmente não consegue ser você! A menos que você tenha um veículo de comunicação. Quero fazer uma autocrítica, já que eu tenho um veículo de comunicação próprio, independente, e talvez enxergue vários defeitos que vou descrever a seguir em mim mesmo, mas dentro dessa autocrítica, eu quero falar sobre quem manda de fato na comunicação.
A primeira coisa que eu quero falar é justamente sobre isso: quando você não consegue ser você em um veículo de comunicação. E quando você não consegue ser você, como você vai conseguir traduzir as suas opiniões? Como você se sentiria trabalhando em um lugar onde quem manda finge que a realidade onde você está simplesmente não existe? Eu não consigo me enxergar em um veículo de comunicação justamente por isso. Em muitos desses veículos, comunicação é só uma entre tantas atividades empresariais de pessoas como empresários, políticos, líderes religiosos, entre tantas pessoas que enxergam na comunicação não apenas a atividade-fim de uma cadeia produtiva, mas uma atividade-meio, uma assessoria para vender as suas ideias, que nem sempre são as ideias da sociedade como um todo, que é diversa e não se pode jamais negar isso. Você realmente se sentiria livre trabalhando para alguém que não trata a comunicação como uma atividade-fim?
Eu entendo que com as possibilidades de hoje, consigo ter uma liberdade criativa que ninguém me dá, e essa é a minha meta desde o início: ter uma liberdade criativa onde muitas vezes, eu posso confrontar e não ser um mero porta-voz de quem manda no veículo de comunicação. O que eu pude ver nesses 16 anos é que nem sempre aquilo que sonhamos se reflete no nosso imaginário coletivo. Passa longe de mim ser individualista, mas é sobre como as ideias são transmitidas até nós sem que a gente tenha a possibilidade de contestar. É sobre as mesmas soluções simplistas de sempre onde a gente não entende porque anda em círculos e não chega a lugar nenhum. É sobre a cidade que não conhece o seu próprio mapa e acredita que está longe daquilo que sempre esteve perto. É sobre saber reclamar das coisas certas e não voltar 100 passos para trás acreditando que está andando para frente. É sobre tanta coisa…
Não adianta a comunicação transmitir sempre as mesmas ideias. Não adianta a comunicação esconder quem nós somos, afinal, ela tem esse poder não somente de mostrar, mas também de esconder para moldar uma “sociedade ideal” que só existe na cabeça dos donos de veículos de comunicação, que em vez de se preocupar com a informação que transmitem, usam como uma ferramenta de propaganda para aquilo que gostariam que a sociedade fosse. A comunicação não é assim. Ela precisa ser uma ferramenta que nos faça ser o espelho daquilo que precisa ser plenamente mostrado para as pessoas. Eu tenho as minhas ideias, você tem as suas, e nenhuma delas pode ser ignorada. Assim como o que somos, o que acreditamos, o que nos define como pessoas. A comunicação tem o mesmo poder de mostrar como tem o mesmo poder de esconder e fingir que uma sociedade diversa não existe. É para isso que eu não bato palmas. Só preciso mesmo lembrar que as diferenças existem.
Aqui eu me sinto livre. Aqui eu me sinto eu mesmo. E quando eu mostro o meu trabalho para as pessoas, faço um convite para que elas conheçam melhor o espaço que eu tornei possível, onde eu posso mostrar um pouco de mim e da minha realidade, que muitas vezes ninguém vê, fica escondida, precisa ser melhor para que seja melhor para todo mundo. E não somente para mim, porque eu não penso só em mim. O que eu comecei no meu quarto, que logo será mais do que o meu quarto, precisa se reverberar para o mundo. Para que as pessoas saibam que eu estou aqui e tenho um trabalho para mostrar. Onde eu posso exercer a liberdade criativa que eu não encontraria no mercado, talvez até numa agência, mas não em um veículo de comunicação. Afinal, a comunicação precisa ser o reflexo de quem comunica, e para mim, não tem sido assim. Aqui eu posso exercer a liberdade criativa que ninguém me dá.
#SetePerguntas
O primeiro post do dia no Site Josivandro Avelar. Um tema por semana, com uma pergunta por dia sobre assuntos relacionados a arte, cidade e comunicação. Pergunte o que quiser, eu posso lhe responder.