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Pertencer à cidade ou a cidade te pertencer: você não é figurante em João Pessoa

Como pequenas escolhas diárias ajudam a construir e a transformar a identidade da cidade. Afinal, a cidade te pertence tanto quanto você pertence a ela. Como você escolhe pertencer?

No terceiro post de ontem eu fiquei preso nas placas — em quem batizou as ruas por onde a gente passa sem prestar atenção. E de tanto olhar pra cima, pra cima, percebi que faltava olhar também pro lado. Porque tem uma pergunta que vem logo depois de “quem nomeou essa cidade”: e eu, o que eu sou dentro dela? Figurante ou parte do elenco principal?

Confesso que passei boa parte da vida achando que era só figurante. Que a cidade acontecia comigo dentro dela, como um cenário que já vinha pronto antes de eu nascer e ia continuar depois que eu morrer. Rua, praça, prédio, tudo já estava lá. Eu só passava.

A cidade não é só o que já existe

Só que a cidade não é só concreto, calçada e nome de rua. É o que se movimenta nela. E o que se movimenta numa cidade — sempre — é gente fazendo escolhas pequenas que ninguém repara na hora, mas que somadas viram a cara do lugar.

Pensa assim: aquele bar da esquina que virou ponto de encontro porque alguém decidiu abrir e outro alguém decidiu ficar. Aquela feira que sobrevive porque tem gente que insiste em comprar ali, mesmo com supermercado do lado. Aquele muro que virou grafite porque alguém achou que aquele cinza merecia cor. Nada disso estava no projeto original da cidade. Foi gente comum inventando pedaço.

João Pessoa tem histórico de virar sobrenome dos poderosos, como falei no texto passado. Mas ela também é feita, todo santo dia, de gente sem sobrenome de placa — que abre um espaço cultural pequeno, que organiza um coletivo de bairro, que grava um vídeo mostrando um cantinho que ninguém filmou antes. Esse site, inclusive, é prova disso: quase dezoito anos registrando o cotidiano de uma cidade, sem nenhum cargo público, sem nenhuma rua com nome de parente — e ainda assim, fazendo parte da história dela.

O que muda quando você deixa de ser plateia

Tem uma diferença enorme entre habitar um lugar e viver um lugar. Habitar é ocupar espaço. Viver é interferir nele — nem que seja um pouquinho.

Você reparou que praticamente todo bairro tem uma pessoa “conhecida”? Não é político, não é famoso, é só alguém que decidiu se importar. O senhor que cuida da praça sem que ninguém peça. A dona que abre a porta de casa pra vender bolo e vira ponto de referência do quarteirão. O grupo de jovens que organiza limpeza de praia. Nenhum desses nomes vai virar placa. Mas a cidade, sem eles, seria visivelmente pior — e isso é uma forma de pertencimento que nenhuma inauguração oficial reconhece.

É esse tipo de gesto que separa quem é dono da própria experiência urbana de quem só está de passagem esperando a cidade acontecer sozinha.

Comunicação como forma de pertencer

Aqui entra uma coisa que eu acho pouco falada: contar a própria cidade também é uma forma de pertencer a ela. Cada post, cada foto, cada Web Story sobre um canto de João Pessoa é um jeito de dizer “isso aqui importa, e eu escolhi mostrar”. Não é passivo. É edição. É recorte. É afirmar que aquele detalhe — que podia passar despercebido — merece ficar registrado.

Quando alguém compartilha o pôr do sol do Cabo Branco pela enésima vez, tem gente que acha repetitivo. Eu acho o oposto: é a cidade sendo reafirmada, dia após dia, por quem escolhe reparar nela. A internet não substitui a rua — mas pode ser um jeito de dizer que a rua importa.

Você faz diferença, mesmo sem saber

A verdade incômoda é essa: a gente costuma achar que só “faz diferença” quem tem microfone grande, cargo, orçamento. Mentira. A cidade é feita de milhares de decisões pequenas tomadas por gente que nunca vai ler o próprio nome numa placa. Onde você compra o pão. Se você cumprimenta o vizinho. Se planta uma muda na calçada. Se registra, com carinho, um detalhe que só quem mora ali percebe.

Nenhuma dessas coisas aparece em estatística de prefeitura. Mas são elas que decidem se uma cidade é fria ou é viva.

Então talvez a resposta pra pergunta do título nem seja escolher um lado. Talvez pertencer à cidade e a cidade te pertencer um pouco sejam a mesma coisa — um movimento de mão dupla que só existe quando alguém decide parar de ser plateia. Você não precisa de rua com seu nome pra deixar marca. Precisa só continuar reparando, contando, plantando o que dá pra plantar — mesmo que seja só uma história por dia.

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