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Onde a felicidade mora, o carnaval acontece

Uma crônica sobre como o Carnaval vai além da data oficial e se transforma em estado de espírito. Porque felicidade não precisa de calendário — ela merece ser celebrada todos os dias.

Onde houver a felicidade, haverá um carnaval.

A gente aprendeu que o Carnaval começa em fevereiro ou março, dependendo da boa vontade do calendário. Que ele tem data marcada, programação oficial, bloco autorizado, trio elétrico com hora para começar e para acabar. Mas isso é só a parte burocrática da festa. O que quase ninguém diz é que o Carnaval de verdade não depende do calendário. Ele depende da felicidade.

E felicidade não é feriado.

Ela não precisa de decreto municipal, de ponto facultativo ou de escola de samba desfilando na avenida. Ela nasce no meio da semana, às três da tarde, quando a gente resolve rir de um problema que parecia gigante. Ela aparece numa conversa despretensiosa, numa conquista pequena, numa ideia que finalmente saiu do papel. E quando ela aparece, pode apostar: ali começou um Carnaval.

O Carnaval oficial é só um símbolo. Uma lembrança coletiva de que a vida não é feita apenas de obrigações. Mas a verdade é que a gente terceirizou a alegria. Colocou ela numa data específica e disse: “Agora pode”. Como se o resto do ano fosse exclusivamente para boletos, relatórios e preocupações.

Isso não faz o menor sentido.

A cultura brasileira sempre entendeu que o Carnaval é explosão, é excesso, é cor. Mas antes de ser tudo isso, ele é permissão. Permissão para ser mais leve. Permissão para dançar mesmo sem saber coreografia. Permissão para se misturar, rir alto, cantar desafinado e existir sem pedir desculpas.

E por que essa permissão só pode acontecer quatro dias por ano?

Se a felicidade apareceu numa terça comum, isso é Carnaval.
Se você celebrou uma pequena vitória que ninguém viu, isso é Carnaval.
Se resolveu brindar a vida sem motivo específico, isso é Carnaval.

O problema é que a gente romantiza a data e esquece do espírito.

O Carnaval, enquanto data, acaba. As ruas voltam ao normal. O glitter vai embora do rosto, mas insiste em ficar no chão da casa por semanas. A música diminui. A rotina volta com aquela cara séria de sempre. Mas a felicidade — quando é verdadeira — não precisa desmontar trio elétrico nenhum. Ela continua.

Talvez o grande erro seja achar que a alegria precisa ser grandiosa para ser válida. Como se só fosse legítima quando acompanhada de multidão. Mas há carnavais silenciosos acontecendo o tempo inteiro: no reencontro com um amigo, na coragem de começar algo novo, no simples fato de estar vivo apesar de tudo.

Celebrar a felicidade fora do calendário é um ato quase revolucionário. É dizer que a vida não é só sobrevivência. É assumir que a rotina pode ter ritmo. Que o cotidiano pode ter cor. Que o ordinário pode ser extraordinário — se a gente decidir olhar com essa lente.

O Carnaval oficial é importante, claro. Ele carrega tradição, história, identidade cultural. Ele movimenta cidades, gera encontros, constrói memórias coletivas. Mas ele é só a vitrine de algo muito maior: a capacidade humana de transformar peso em dança.

E essa capacidade não expira na quarta-feira de cinzas.

Talvez a verdadeira quarta-feira de cinzas seja quando a gente apaga a própria alegria porque “agora acabou”. Porque “não é mais tempo”. Porque “a vida real voltou”. Como se viver com leveza não fosse justamente a parte mais real de todas.

Onde houver a felicidade, haverá um carnaval.

Mesmo que não tenha fantasia.
Mesmo que não tenha bloco.
Mesmo que não tenha ninguém além de você.

Porque Carnaval, no fundo, é sobre celebrar o fato de estar aqui. É sobre transformar o agora em festa — ainda que pequena, ainda que discreta. É sobre entender que alegria não precisa de autorização.

Se a felicidade bater na sua porta numa segunda-feira comum, não mande ela esperar até fevereiro. Abra. Coloque uma música qualquer. Dance do seu jeito. Brinde com café mesmo. Faça do instante um desfile particular.

A data passa.
A felicidade, quando cultivada, fica.

E se ela ficou, pode ter certeza: o Carnaval também.

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