Tem algo peculiar nas cidades brasileiras nos dias que antecedem o Carnaval. Uma divisão silenciosa se instala entre quem já está com o glitter separado e quem está calculando quantos dias de paz terá pela frente. Não é sobre gostar ou não da festa — é sobre a forma como nos relacionamos com a ideia de “estar presente” em 2025. Porque, convenhamos, nunca foi tão difícil simplesmente não ir a um evento.
O FOMO (Fear of Missing Out, ou o medo de estar perdendo algo) virou a sombra invisível de qualquer festa de grande porte, especialmente o Carnaval. E aqui está o paradoxo: a festa que nasceu como explosão democrática de alegria, ocupação das ruas e liberdade virou, para muitos, um palco de ansiedade. Não necessariamente pela folia em si, mas pela sensação de que, ao ficar em casa, você estaria “fora” de algo essencial. Como se sua experiência de vida dependesse de estar no bloco mais comentado, na foto mais curtida, na história mais vista.
Quando a festa vira performance
Antigamente, você ia ao Carnaval porque queria pular, dançar, se jogar. Hoje, muita gente vai porque precisa provar que foi. A diferença é sutil, mas brutal. É a linha tênue entre viver a experiência e documentar a experiência para consumo alheio.
Nas redes sociais, especialmente no Instagram e no TikTok, o Carnaval se tornou um dos eventos mais performáticos do calendário brasileiro. Não basta estar no bloco — é preciso que todos saibam que você está lá, de preferência no bloco “certo”, com a fantasia “certa”, ao lado das pessoas “certas”. O que era espontaneidade virou roteiro. O que era diversão virou métrica.
Nenhuma cidade brasileira escapa dessa lógica. Os blocos tradicionais, que antes eram encontros despretensiosos entre amigos e vizinhos, agora disputam espaço na timeline com produções cada vez mais elaboradas. A pressão aumenta: se você não postou, você realmente aproveitou? Se ninguém viu, o momento existiu?
O tripé que sustenta a ansiedade
Aqui entra o tripé que sustenta essa dinâmica contemporânea do Carnaval: Arte, Cidade e Comunicação.
Arte — O Carnaval sempre foi manifestação artística popular. Mas hoje, além das fantasias e dos cortejos, há uma nova camada: a estética para redes sociais. Looks são pensados para serem “instagramáveis”. Cenários urbanos viram fundos para conteúdo. A arte da festa se mistura com a arte da produção de imagem, e nem sempre essa fusão é saudável. O que deveria ser expressão se torna obrigação visual.
Cidade — A ocupação do espaço urbano durante o Carnaval é simbólica. É o povo tomando as ruas, democratizando o acesso ao lazer, transformando avenidas em palcos. Mas quando essa ocupação é mediada pelas redes sociais, algo muda. A cidade deixa de ser apenas vivida para ser também transmitida. E isso gera uma contradição: muita gente está fisicamente presente, mas mentalmente ausente, preocupada em capturar o momento perfeito em vez de simplesmente estar nele.
Comunicação — As plataformas digitais amplificaram a visibilidade do Carnaval, mas também criaram novos códigos de conduta social. Você não vai apenas ao bloco; você anuncia que vai, posta chegando, faz stories durante e depois ainda precisa fazer o “compiladão” no feed. A comunicação deixou de ser sobre compartilhar e virou sobre comprovar. E quem não participa desse ciclo? Sente que ficou de fora. FOMO puro.
A hype e o vazio
Existe também um outro personagem nessa história: aquele que vai por ir, porque “todo mundo vai estar lá”. Não é exatamente pelo amor à festa, mas pela impossibilidade de não estar. É o FOMO em sua essência: a decisão movida pelo medo da exclusão, não pelo desejo genuíno de participar.
Esse é o público que disputa vaga nos blocos mais hypados, que compra abadá do mais caro, que faz questão de circular pelos lugares onde “todo mundo” circula. E depois? Muitas vezes, a sensação é de vazio. Porque a experiência foi construída em cima da expectativa alheia, não do próprio querer.
A comunicação de massa nas redes sociais criou a ilusão de que existe um Carnaval “oficial”, aquele que vale a pena. E isso, inevitavelmente, deslegitima todas as outras formas de viver (ou não viver) a festa. Ficar em casa lendo um livro? Menos válido. Ir a um bloquinho pequeno no bairro? Menos relevante. Viajar para um lugar vazio? Desperdício da data.
A contrarrevolução silenciosa
Mas tem algo acontecendo nas entrelinhas. Uma contrarrevolução silenciosa de quem decidiu que não precisa estar em todos os lugares para existir plenamente. Pessoas que, em pleno 2025, estão redescobrindo o direito de dizer “não vou” sem sentir que estão perdendo algo.
Esse movimento não é contra o Carnaval. É contra a obrigatoriedade emocional que as redes sociais impuseram sobre os eventos. É sobre retomar a autonomia sobre o próprio tempo, o próprio corpo, a própria presença. Porque ficar em casa, assistir a um filme, dormir até tarde ou simplesmente aproveitar a cidade vazia também são escolhas legítimas. Não são menos. São diferentes.
Em todas as cidades brasileiras, independente do tamanho ou da tradição carnavalesca, ainda é possível encontrar esse respiro. Blocos de bairro que não viralizam. Rodas de samba que não aparecem no feed. Silêncios que não precisam ser explicados.
Estar presente ou estar ausente: ambos valem
O grande desafio contemporâneo não é escolher entre ir ou não ir ao Carnaval. É desmontar a estrutura mental que nos faz sentir culpados por qualquer uma das escolhas. O FOMO é poderoso justamente porque nos convence de que sempre há uma experiência melhor acontecendo em outro lugar, com outras pessoas. E isso é, na maioria das vezes, uma ilusão.
A verdade é que você pode pular Carnaval inteiros e ainda assim ter uma vida plena. Pode ir a todos e ainda assim sentir vazio. O que importa não é a presença física na festa, mas a presença mental na própria vida. E isso, nenhuma rede social mede.
Então, se você é daqueles que adora Carnaval, que espera o ano todo pelo primeiro acorde da marchinhas, vá com tudo. Dance até os pés doerem. Cante até perder a voz. Registre se quiser, mas viva acima de tudo.
E se você é daqueles que preferem o silêncio, que escolhem o sofá, o livro, a cidade vazia, saiba: isso também é uma forma de celebrar. O silêncio também é festa. A ausência também é presença. E nenhuma dessas escolhas precisa de validação externa.
O Carnaval vai passar. As redes sociais vão se encher de conteúdo e depois esvaziar. E no final, o que fica não é o tanto que você foi visto, mas o tanto que você se sentiu inteiro. Com ou sem glitter.












