Uma ideia pode aparecer de repente, mas dificilmente surgiu do nada. Antes daquele instante em que pensamos “é isso!”, existe uma coleção de coisas que vimos, ouvimos, lemos, experimentamos e sentimos. Algumas lembramos claramente. Outras ficaram escondidas em algum canto da memória, esperando uma oportunidade para fazer sentido.
Criar é justamente perceber essas conexões.
Uma fotografia pode conversar com uma lembrança. Uma frase pode se encontrar com uma experiência. Uma viagem pode mudar a maneira como enxergamos um problema. Uma conversa pode despertar uma ideia que estava adormecida. Um detalhe da cidade pode se transformar em referência para uma identidade visual. Uma música pode influenciar o ritmo de um texto.
A criatividade não trabalha em compartimentos isolados. Ela mistura.
Por isso, construir repertório é tão importante. Quanto mais experiências acumulamos e, principalmente, quanto melhor conseguimos observá-las, maior é a quantidade de pontos disponíveis para conectar. O repertório não precisa ser formado apenas por aquilo que consideramos diretamente relacionado ao nosso trabalho. Pelo contrário: muitas soluções interessantes aparecem justamente quando uma referência de um universo encontra um problema de outro.
Um publicitário pode aprender com a arquitetura. Um designer pode encontrar inspiração na sinalização de uma rua. Um ilustrador pode observar uma feira. Um redator pode prestar atenção em uma conversa no ônibus. Quem trabalha com conteúdo pode encontrar uma estrutura narrativa em um filme ou perceber uma nova forma de comunicar observando como uma pessoa explica algo para outra.
A cidade é um desses grandes pontos de conexão.
Ela reúne pessoas, histórias, sons, formas, cores, conflitos, hábitos e transformações acontecendo simultaneamente. Observar a cidade não é apenas procurar paisagens bonitas. É perceber como as pessoas ocupam os espaços, como determinadas mensagens são construídas, como os lugares mudam e como tudo isso produz significados.
É possível encontrar criatividade em uma esquina.
Também é possível encontrá-la em um livro, em uma tela, em uma conversa ou em uma experiência cotidiana.
O importante é estar atento.
Essa atenção transforma o modo como consumimos referências. Em vez de simplesmente perguntar se gostamos ou não de alguma coisa, podemos tentar entender por que ela funciona. O que chamou nossa atenção? Foi a composição? A escolha das palavras? O contraste? O ritmo? A simplicidade? A maneira de apresentar uma informação? A emoção provocada?
Quando fazemos essas perguntas, deixamos de ser apenas espectadores e passamos a aprender com aquilo que observamos.
É aí que referência vira repertório.
E repertório vira possibilidade.
No meu universo, essa ideia está diretamente relacionada à própria simbologia da marca. A luneta representa a curiosidade, o olhar para longe e a capacidade de trazer para perto aquilo que está distante do nosso olhar. Ela é sustentada pelo tripé formado por arte, cidade e comunicação — três campos que se encontram justamente na construção das ideias.
Essa conexão também aparece na própria história do projeto. O Site Josivandro Avelar nasceu da combinação entre redações escritas em cadernos, desenhos feitos no papel e no computador e ideias que foram se juntando até transformar uma vontade de expressão em um projeto. Ao longo do tempo, palavras, desenhos, cartazes, fotografias, vídeos, podcasts, infográficos e outros formatos passaram a fazer parte desse ecossistema.
Nada disso precisa ter começado como um grande plano.
É assim que muitas coisas criativas acontecem: uma experiência leva a outra, uma referência encontra uma necessidade e uma possibilidade surge no meio desse encontro.
Por isso, também não precisamos esperar pela “grande ideia”. Podemos colecionar pequenos pontos.
Uma anotação.
Uma fotografia.
Uma frase.
Um desenho.
Uma conversa.
Uma descoberta.
Uma pergunta.
Um erro.
Um lugar.
Uma sensação.
Sozinhos, talvez esses elementos pareçam insignificantes. Juntos, podem formar uma rede de possibilidades.
E existe algo poderoso nessa maneira de pensar: não precisamos saber imediatamente onde uma referência será utilizada.
Uma ideia guardada hoje pode resolver um problema daqui a meses. Uma habilidade aprendida em um projeto pode aparecer em outro completamente diferente. Uma observação feita durante uma caminhada pode mudar a direção de uma criação futura.
O repertório funciona como uma espécie de mapa. Não indica necessariamente o caminho que devemos seguir, mas mostra que existem caminhos possíveis.
Criar, então, não é apenas produzir alguma coisa. É estabelecer relações.
É olhar para dois elementos que aparentemente não têm nada em comum e perguntar: e se eles conversassem?
É combinar uma referência antiga com uma necessidade nova. É pegar algo conhecido e reorganizá-lo de uma maneira diferente. É transformar experiências em linguagem e linguagem em novas experiências.
Isso também explica por que copiar uma solução pronta raramente produz algo realmente interessante. A cópia reproduz uma conexão que outra pessoa já fez. A criação começa quando conseguimos fazer novas conexões a partir daquilo que aprendemos.
Quanto maior o repertório, maior o número de pontos.
Quanto maior a atenção, mais conexões conseguimos enxergar.
E quanto mais conexões fazemos, mais possibilidades temos de encontrar uma solução própria.
No fim, talvez criar seja menos sobre inventar alguma coisa absolutamente inédita e mais sobre perceber relações que ainda não havíamos percebido.
Uma cidade encontra uma memória.
Uma leitura encontra uma experiência.
Uma pessoa encontra outra ideia.
Uma referência encontra um problema.
E, de repente, os pontos se conectam.
É desse encontro que nasce alguma coisa nova.










