Tem uma coisa que eu faço sem perceber, há anos: leio as placas. Não pra me localizar — pra isso o celular já resolve. Leio pra tentar entender quem foi aquela pessoa que virou nome de rua. Um coronel. Um bispo. Um “doutor” sem sobrenome de família conhecida, o que já é raro. E às vezes leio e não descubro nada, porque a história de quem batizou aquele pedaço da cidade se perdeu no tempo, ficou só a placa, o nome, o silêncio.
Foi andando pelo Rangel — bairro onde esse site nasceu, ainda que hoje ele exista em qualquer lugar que eu esteja com um teclado na mão — que a pergunta ficou mais incômoda: essas ruas me identificam? Ou identificam os sobrenomes de quem, em algum momento da história, decidiu que era dono da cidade? Seriam esses nomes lembretes de um poder que nunca me coube?
Vamos aprofundar essa caminhada para além das fronteiras do meu bairro. As ruas, milhares, referências, várias, histórias guardadas em cada placa azul que possa existir nas esquinas e me lembre: o lugar que eu estou é o lugar que eu pertenço, ou é o lugar que pertence a mim? Você realmente sente que a cidade é sua? Uma volta pelos caminhos da sua rotina pode ajudar a responder.
Uma cidade que já trocou de nome várias vezes
João Pessoa não é só um exemplo de rua com nome de gente. É uma cidade inteira com nome de gente. Fundada em 1585 como Cidade Real de Nossa Senhora das Neves, depois virou Filipéia — homenagem a um rei espanhol que nem pisou aqui —, passou por Frederikstadt na ocupação holandesa, foi Parahyba do Norte por muito tempo, até finalmente virar João Pessoa, em memória do político assassinado em 1930.
Se a capital inteira já vestiu tantos sobrenomes diferentes, dependendo de quem estava no poder em cada época, não deveria surpreender que suas ruas sigam a mesma lógica. O nome de uma cidade — como o nome de uma rua — quase nunca nasce do povo que nela vive. Nasce de quem manda escrever a placa.
Quem vira nome de rua, afinal?
Reparando com atenção, dá pra perceber um padrão que se repete em praticamente qualquer cidade brasileira, e aqui não é diferente: coronéis do período do cacau ou do açúcar, bispos, desembargadores, políticos que ocuparam cargo em algum momento, “filhos ilustres” que quase sempre pertenciam a famílias que já tinham dinheiro antes de virar nome de rua. Muito raramente uma via carrega o nome de uma lavadeira, de um pescador da Ponta do Seixas, de uma parteira do interior que também fez história — só que uma história que não interessou a quem decidiu as placas.
Isso não é acidente. É comunicação. Toda vez que uma prefeitura, uma câmara de vereadores ou uma construtora batiza uma rua, está fazendo uma escolha editorial — igualzinho a quando a gente decide o que vai virar post e o que fica de fora. E o que vira nome de rua diz, com todas as letras, quem uma sociedade decidiu lembrar. E, por consequência, quem ela decidiu esquecer.










A cidade real x a cidade oficial
Só que tem uma coisa bonita nisso tudo: o povo também nomeia. Só que informalmente. Quantas ruas de João Pessoa têm um apelido popular que ninguém usa o nome oficial? Quantos pontos de referência — “ali onde era a padaria”, “perto da igrejinha”, “descendo pro Cabo Branco” — funcionam melhor do que qualquer placa? A cidade real, a que a gente vive todo santo dia, é feita de apelidos, atalhos e memórias que não estão em nenhum mapa. A cidade oficial é a que está gravada em bronze.
Talvez seja aí que mora a resposta pra minha pergunta inicial. As ruas não me identificam — mas a forma como eu me relaciono com elas, sim. O nome na placa pertence a quem teve poder de colocá-lo lá. O significado que eu dou àquele pedaço de asfalto, à esquina onde encontrei um amigo, à praça onde vi um pôr do sol que me fez parar — isso é meu. É de quem caminha, não de quem manda gravar.
E se a gente também nomeasse?
Não é sobre trocar toda placa da cidade — isso vira briga política e o texto de hoje não é sobre isso. É sobre uma provocação menor, mais silenciosa: será que a gente presta atenção nos nomes que nos cercam? Será que sabe quem foi aquele “Barão” que dá nome à rua onde mora? E, sabendo, será que concorda que aquele nome merecia o lugar mais visível da cidade — uma placa que todo mundo lê, todo santo dia, sem escolher?
Eu não tenho resposta fechada. Tenho só o hábito de olhar pra cima, pra placa, e desconfiar um pouco. A luneta que dá nome a esse site foi feita justamente pra isso: pra observar de perto o que parece pequeno demais pra reparar. E poucas coisas são tão pequenas — e tão cheias de história — quanto o nome de uma rua.
Da próxima vez que você passar por uma esquina de João Pessoa, tenta ler a placa antes de virar. Talvez ela conte mais sobre a cidade do que qualquer prédio novo que estejam construindo nela.











