# OS ARTICULADOS: UMA HISTÓRIA QUE RENDEU CONVERSA

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- Published: 2009-07-17T00:33:00-03:00
- Author: Josivandro Avelar

Bons futuros jornalistas não procuram assuntos: os assuntos aparecem naturalmente.
O último deles foi uma espécie de polêmica em relação a uma suposta aquisição de
dois ônibus articulados pela empresa de transporte coletivo Transnacional (a maior
do estado), que seriam os primeiros de João Pessoa. O [Júnior IMJ](http://juniorimj.zip.net/)
publicou em seu blog uma postagem chamada “A Saga de São Tomé” (São Tomé é o nome
do apóstolo que só acreditou na ressurreição de Cristo quando o viu), aonde relata
sua visita até uma concessionária de caminhões para confirmar se essa compra foi
mesmo feita. Ele teria recebido uma ligação de um vendedor da concessionária confirmando
a compra, mas quando lá foi ouviu outra versão do mesmo vendedor e afirmou em letras
maiúsculas que a história não passava de uma farsa. O texto a seguir foi extraído
do blog:

> _Até que chegou a hora da pergunta que eu já tivera tido uma resposta (lembram
> da ligação que recebi do senhor P. T?) mas que eu ainda não tinha acreditado de
> verdade. “O senhor confirma a compra de ônibus articulados pela Transnacional,
> como o senhor me dissera antes?” Aí veio a resposta definitiva: “NÃO!”. Aí eu 
> devolvi: “mas o senhor me confirmou hoje pela manhã que essa compra tinha sido
> feita”. E ele devolveu: “não, não. Articulados não foram comprados, e nós não 
> trabalhamos com articulados, já que a cidade de João Pessoa não comporta esse 
> tipo de ônibus em suas ruas. Apenas foram comprados ônibus tuncados, mas articulados,
> não!”_

> [**Júnior IMJ**](http://juniorimj.zip.net/), em seu blog, na postagem “A saga 
> de São Tomé” (P.T., segundo Júnior, são as iniciais do vendedor)

Como reza o bom jornalismo, vamos entender os vários lados dessa história: Com que
intenção alguém queria inventar uma notícia dessas? Se houve a compra, porque os
carros teriam sido devolvidos?

Tinha comentado no mesmo blog que a cidade tem curva demais para comportar um articulado,
mas um outro comentário no mesmo blog que li do Guttemberg, me convenceu. O vendedor
disse que “a cidade de João Pessoa não comporta esse tipo de ônibus em suas ruas”.
Mas como Recife, que tem absolutamente as mesmas condições viárias de João Pessoa,
possui ônibus articulados? Me lembrei de uma reportagem que vi no JPB mês passado,
onde a prefeitura de uma cidade do interior do estado contratou um ônibus do forró.
Detalhe: esse ônibus era articulado. E Natal, há uns quinze anos atrás já teve um
ônibus articulado. Trocando em miúdos, um articulado cabe numa cidade de porte médio
como João Pessoa, sim.

Leia o comentário de Guttemberg no blog, aqui transcrito na íntegra. É bem esclarecedora
sobre o assunto:

> _Posso ser sincero em relação á isso? não são as curvas de João Pessoa não… é 
> sim pq os articulados são mais caros do que os convencionais e carros alongados
> e trucados cabem quase a mesma qte. de pessoas, um articulado também corre menos
> do que um convencional, atrasando a operação dos funcionários, ou seja, um convencional
> e trucado, já satisfaz muito bem. Se for pela curva, Recife aonde moro não deveria
> nem ter 10 articulados, pois grande maioria deles passam por curvas extreitas 
> e nem por isso deixam de comprar, mas mudando um pouco o foco, espero que as empresas
> cumpram a nova lei da ANTT, e comprem os verdadeiros articulados, com piso baixo
> e motor traseiro. abraço ! _
> **Guttemberg Siqueira**, comentando sobre o assunto no blog

Se a história circulou e se é ou não verdade, veremos. Agora, tudo isso passa, como
disse o Guttemberg, por uma norma que explica porque os ônibus que estão sendo comprados
pelas cidades esse ano estão vindo adaptados para deficientes físicos e outros tipos
de recursos que auxiliam os portadores de necessidades especiais, ou seja, a Lei
10.098/2000, que determina que, todos os ônibus fabricados a partir de outubro de
2008 tenham algum tipo de adaptação para deficientes físicos, como piso baixo, plataformas
elevatórias ou elevadores para cadeirantes. Uma norma da [ABNT](http://www.abnt.org.br/)(
acho que foi isso que o Guttemberg quis dizer) proíbe a fabricação de ônibus articulados
com motor dianteiro. Pela descrição que recebi desses ônibus, era assim que eles
viriam, ou seja, contra essas normas. Achei essa norma no site do MPDFT (Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios), e, se você quiser conhecê-la melhor,
[clique aqui](http://www.inmetro.gov.br/portalrbmlq/documentos_disponiveis/planfisc/Nbr14022.pdf).
Também aqui consta outro documento, a norma ABNT 15570, que achei no site do ABNT(
Associação Brasileira de Normas Técnicas), e para conhecer também esse documento,
[clique aqui](http://www.abnt.org.br/IMAGENS/NORMALIZA%C3%87%C3%83O/PUBLICA%C3%87%C3%95ES%20SEMANAIS%20E%20MENSAIS/abntnbr15570_2008em1_2009.pdf).

Voltando a parte logística, esses ônibus articulados são muito caros, e o governo
baixou a norma sem nem ao menos oferecer linhas de crédito para a compra desses 
veículos (se bem que dinheiro não falta nas empresas) e nem isenção de impostos 
como ICMS. Resultado: quem paga por essas mudanças é o passageiro em forma de aumentos
de passagem indesejáveis pela população. Aliás, foi isenção de ICMS que baixou a
tarifa de ônibus em Fortaleza.

E, diga-se de passagem, as cidades crescem numa velocidade impressionante, e João
Pessoa, por exemplo, está chegando a marca de um milhão de habitantes. É claro que
o sistema de transporte coletivo precisa se adaptar. Já há normas para isso e as
empresas naturalmente precisam cumprí-las, ou seja, uma hora essa evolução vai acontecer.
Pode não ter sido dessa vez, pode não ser. Mas vai acontecer.

Principalmente quando estamos falando nas possibilidades de investimentos que a 
Copa de 2014 vai trazer por aqui. Isso porque as 12 cidades-sedes da Copa de 2014
não terão apenas de construir estádios, terão de melhorar por completo a infraestrutura
das cidades, incluindo o sistema de transporte. João Pessoa não é cidade-sede, mas
fica entre Recife e Natal, que sediarão jogos da Copa e com isso o reflexo de turistas
e delegações será alto nessa região no período. E até lá João Pessoa já passou de
1 milhão de habitantes.

Talvez uma análise melhor dos fatos e boatos possa ser mais esclarecedora para avaliarmos
o que aconteceu para que os articulados ou não chegassem ou mesmo não existissem,
e tenho certeza que esclareci isso melhor. Uma boa análise que saiu de um boato,
se é verdade ou mentira não interessa no momento, o que importa é que pelo menos
isso foi suficiente para debater, mesmo que indiretamente, as condições do transporte
público das capitais, principalmente uma capital de porte médio como João Pessoa,
e até mesmo avaliar se um carro desses cabe ou não nas ruas da cidade. Se existe
uma norma que determina, certamente ela será cumprida. E quem ganha com isso é o
cidadão pessoense, que pode ter certeza que pode exercer o seu direito de ir e vir
com conforto e segurança.

Se não foi dessa vez, não irá demorar para que o sonho dos articulados se realize,
para o bem da mobilidade da cidade. Até porque uma hora o transporte público de 
João Pessoa irá precisar desses ônibus.

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