# NINGUÉM CONSEGUE SE MOVER

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- Published: 2011-06-12T12:56:00-03:00
- Author: Josivandro Avelar

[⌊Engarrafamento em um ponto da cidade de João Pessoa.⌉⌊Engarrafamento em um ponto
da cidade de João Pessoa.⌉[ Sábado, 4 de junho, presenciei um congestionamento considerável
na 2 de Fevereiro, bairro do Rangel. Já não é mais a mesma rua de 23 anos atrás,
quando nasci. E olha que conheço o bairro desde esse tempo, pois moro aqui desde
que nasci.

Qualquer caminhão que para descarregando mercadorias na feira do bairro já provoca
problemas sérios no trânsito da rua. Ela já é estreita e não tem como alargar. A
não ser que você tenha que passar por outras vias. Aí seria fácil dizer “falta um
pouquinho da ‘cultura da opção’ nos motoristas de procurar alternativas para a sua
mobilidade”, certo? Mas como se ninguém consegue se mover nesta cidade?

É só ver o que costumo ver todo dia no caminho da faculdade. Vias carregadas. Epitácio,
Pedro II, Retão de Manaíra, Mangabeira, são alguns exemplos de pontos movimentados
onde a cada dia fica difícil se movimentar de carro. E isso, claro, reflete no sistema
de transporte coletivo, isso vamos falar depois num outro post.

Para se ter uma ideia, tenho de sair bem cedo para poder chegar à faculdade o quanto
menos atrasado melhor. E posso dizer que minha estratégia técnica dá certo: consigo
chegar de 7:20 da manhã, 10 minutos antes do início da aula. Mas, tem um detalhe:
os professores da faculdade chegam bem mais atrasados, 7:35, 7:40. Não por culpa
deles mesmos. É o trânsito que os impede de cumprir os compromissos na hora que 
gostariam. E não são só eles que tem problemas com o trânsito. É com todo mundo.

Nos corredores da cidade, qualquer coisa é motivo de congestionamento. Até mesmo
pequenos acidentes sem maiores avarias com os carros. Até se alguém cair de uma 
bicicleta hoje em dia já é motivo para o trânsito parar. E ficar congestionado por
um bom tempo.

Cada vez mais cresce o número de automóveis de todos os tipos e todos os tamanhos
na cidade. Comprar um carro é mais fácil hoje em dia do que há 20 anos atrás; compra-
se como se compra uma televisão para sua casa. E já posso citar aqui o exemplo do
próprio aparelho de TV: antes você não tinha uma televisão para a sua sala, e pôde
comprar um. E agora com as facilidades do crédito você já tem condições de comprar
outra televisão para o quarto, por exemplo. A mesma coisa é com o carro: há 20 anos
atrás, eram poucas as opções e as montadoras no mercado brasileiro. Hoje, 2011, 
você encontra vários tipos de carros de todos os gostos e montadoras.

Mas o poder público não correspondeu a esse progresso adquirido pela população. 
Não tem espaço para todo mundo! Ora, João Pessoa, conhecida como uma cidade com 
clima de interior, logo começou a sentir os sintomas de ser uma metrópole. Você 
já não consegue mais cumprir os compromissos no horário que combinou. Paciência.

Há 20 anos atrás, muitos autores de ficção científica previam como seriam as cidades
do ano 2000. Prédios futuristas, carros flutuantes, que voam como aviões. Prédios
futuristas até podem ser possíveis, mas carros flutuantes… Quem dera.

Hoje a cidade paga por uma evolução sem planejamento. Já pensam como tentar solucionar
esse problema, mesmo que a evolução da infraestrutura chegue um pouco atrasada em
relação a essa evolução da população, que cresce. João Pessoa já está chegando a
1 milhão de habitantes. O mundo, em sete bilhões.

E enquanto ainda se pensa no que fazer para que o trânsito de João Pessoa seja o
menos caótico possível, o consumo cresce aceleradamente. A estrutura da Epitácio
Pessoa, por exemplo, é de 20, 30, 70 anos atrás. A atual estrutura da avenida foi
pensada para o trânsito de 30 anos atrás. Não se aplica mais ao tráfego de agora.

Esses problemas já são sentidos por quem não usa carro, o que é o meu caso, que 
sou usuário do sistema de transporte público da capital. Também enfrenta sérios 
problemas. E nos horários de pico é que isso se torna mais transparente.

[⌊Integração em típico horário de pico.⌉⌊Integração em típico horário de pico.⌉[ Já há determinadas
linhas que evito pegar por conta da superlotação. Uma delas, a linha 507-Cabo Branco,
composta por 16 ônibus de 12 metros de comprimento e 45 lugares sentados em média,
44 em pé. Não dá pra todo mundo entrar. Geralmente costumo ver veículos dessa linha
na Epitácio cheios de gente até na escada. Para uma pessoa descer do ônibus no início
da Epitácio, três ou quatro descem para que essa pessoa desembarque, e depois que
ela desembarca, elas voltam a escada do coletivo para seguir viagem.

Outra dessas linhas críticas é o 1001-Via Shopping. Não adianta embarcar nesse ônibus
no bairro de Jaguaribe. Você não embarca, o motorista não para, e não é por queimar
parada. É porque o carro já vem superlotado do Bairro das Indústrias e de Cruz das
Armas. Você só consegue embarcar nessa linha depois do Lyceu. É de dia, é de noite:
já presenciei ônibus dessa linha enchendo de estudantes da escola por volta de 18
horas, quando terminam as aulas da tarde, turno ao qual estudava no Lyceu. O próprio
Bairro das Indústrias tem poucas opções de linhas. É frequente encontrar os carros
do 104, linha que liga o bairro ao Centro, lotados, por exemplo.

Mas, se fosse estabelecer o sucesso ou fracasso de uma linha a lotação que ela apresenta
em determinados horários, diversas linhas importantes da cidade já teriam sido extintas,
e quantos não seriam prejudicados? Vejam o caso do 501-Colinas do Sul: essa linha
em horários de pico vem um pouco vazia, mas é importante para o bairro, que gostaria
que essa linha simplesmente não atrasasse em seu tempo de viagem.

O próprio caso das linhas circulares é delicado. Muita gente até pode dizer, por
exemplo, que o 2300/3200-Circular não são linhas movimentadas, mas esses Circulares
são a única ligação do bairro do Rangel com o Valentina. Diferente dos Circulares
1500/5100, que possuem auxiliares (1510/5110 e 1519/5120). Se você está na Epitácio
e mora no Valentina e vê um 1500, naturalmente você espera o 1519, uma vez que esse
primeiro Circular vai precisar fazer um itinerário em Manaíra e em Mangabeira antes
de ir ao Valentina. Vem o 1519 e o que acontece? O carro está superlotado e você
não consegue pegar. Tem que esperar muito: ou pegando esse 1500, ou esperando outro
1519.

No caso do 3200, lembro de um dia em que fui fazer um trabalho de campo com minhas
colegas da faculdade. Elas iriam pegar o 3200 no Terminal de Integração do Varadouro,
e fui também, já que o ônibus passa no meu bairro. Tivemos que pegar o segundo. 
O primeiro já estava cheio. E no segundo, tive que viajar na escada da porta do 
meio do ônibus. Sim, no Terminal de Integração do Varadouro você pode pegar 11 opções
de carros diferentes para ir até o Rangel, mas não tem jeito, todas saem cheias.
Aí você acha que, pegando um 3200, estaria livre da lotação, “ah, os carros vem 
vagos”. Não encontra. Tem que viajar a pé. E mais: o carro do 3200 o qual peguei
tem apenas 38 lugares, e substituiu um carro trucado de 48 lugares.

[⌊Lá do lado de fora, a cidade não pára.⌉⌊Lá do lado de fora, a cidade não pára.⌉[ Para onde foi esse carro de 48 lugares? Para uma outra linha de nome 5204-Cristo/Manaíra Shopping, a qual já até citei numa [postagem em 2009](https://josivandroavelar.com.br/a-demanda-cresceu/). Até o
início do ano, rodavam três carros do tipo micrão nessa linha junto com outros três
convencionais. O aumento da demanda fez a empresa tirar os três micrões e colocar
outros três carros maiores. Mas isso não foi suficiente: a empresa ainda trocou 
um carro desses por esse ônibus trucado, com 48 lugares. O aumento se deve por essa
linha ser a única ligação de parte do bairro do Cristo com a Epitácio Pessoa (os
ônibus de Mangabeira não chegam até o ponto do bairro onde o 5204 chega), como também
a ligação do bairro inteiro do Cristo e do Rangel com a região da Zona Norte, uma
das mais nobres da cidade, e com o crescimento, atrai contigente de trabalho que
vem da Zona Oeste.

E voltando aos Circulares, voltamos ao 1500/5100. No ponto onde eu pego a linha 
5100, o carro sai vago, três pessoas no mínimo estão lá quando pego esse ônibus.
Mas começa a aumentar quando já começa a chegar na Epitácio e na Lagoa. Algumas 
paradas depois, o carro de três pessoas já se torna um carro consideravelmente lotado.
Isso de 11 da manhã, imagine então em horários de pico.

2300 não fica atrás. Se ela não existisse, a linha 301-Mangabeira-Pedro II estaria
asfixiada. A empresa já colocou dois articulados nessa linha, além de vários ônibus
trucados. Eles saem lotados nos horários de pico. O passageiro, ao ver que não tem
espaço no 301, já embarca no 2300 que faz praticamente o mesmo itinerário, mas ainda
tem pessoas indo ao Valentina para embarcar. Como também não é raro encontrar ônibus
do bairro do Valentina lotados; e olha que juntos Mangabeira e Valentina concentram
uma boa parcela da população pessoense. São os dois maiores bairros da cidade.

Ficaria horas enumerando esses problemas, por isso destaquei alguns. Desde algum
tempo que estudo fora do bairro onde moro, mais longe, e me desloco todos os dias.
Ou melhor, tentando me deslocar de modo a chegar dentro do horário estabelecido.
Coisa bem impossível, a menos que você acorde bem cedo ou saia com antecedência,
o que eu tive de fazer. Andar na cidade é uma verdadeira aventura, a qual você tem
que se preparar muito.

Afinal de contas, a cidade cresceu, e junto com esse crescimento, vieram aqueles
velhos conhecidos problemas de cidade grande. E parece que ainda não estamos acostumados
a conviver com eles, como também não estamos acostumados a enfrentá-los. E assim
segue a vida frenética da cidade.

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