# #ContentTalks: O que você quer: a notícia ou a catarse?

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- Published: 2026-11-02T23:30:00-03:00
- Author: Josivandro Avelar

Sabe aquela tarja vermelha piscando “URGENTE” na sua tela, acompanhada de uma trilha
sonora de tensão, para anunciar um fato que todo mundo já sabia que ia acontecer?
Ela não é apenas um truque barato de audiência. Ela é o sintoma de uma mídia em 
desespero, tentando recriar a todo custo um sentimento que nós, como sociedade, 
perdemos: a capacidade de sermos pegos de surpresa.

Recentemente, alguns críticos de TV reclamaram da “apatia” do jornalismo diante 
de uma cobertura política que, no mundo real, está pegando fogo. A ironia perfeita
é que esses mesmos críticos são os que costumam reclamar da duração do telejornal
quando ele ameaça atrasar a novela das nove. Mas essa queixa, por mais contraditória
que seja, revela algo profundo sobre como consumimos a realidade hoje. Nós não nos
importamos com a história em si. Nos importamos com a embalagem narrativa.

Fomos condicionados, ao longo de décadas de transmissões épicas, a esperar “edições
de colecionador”. Queremos a música grave, a voz empostada do âncora, a escalada
impactante. Queremos a história mastigada no formato de um clímax contínuo, como
se a realidade fosse uma série da Netflix. E quando a televisão não entrega essa
catarse — porque a política real e a história cotidiana são frequentemente feitas
de processos lentos e discursos monótonos —, cobramos do jornalismo que injete uma
voltagem cinematográfica nos fatos.

O problema dessa exigência crônica pelo espetáculo é que ela ignora como os verdadeiros
marcos históricos foram registrados. A história não bate o ponto. Ela não acontece
com hora marcada para encaixar no segundo bloco do telejornal. Ela irrompe. E o 
que torna um registro audiovisual genuinamente histórico não é a sua embalagem perfeita,
mas a completa destruição dela. É a vulnerabilidade de quem noticia.

Pense no 11 de setembro de 2001. Aquele é, indiscutivelmente, o marco zero da quebra
de roteiro na comunicação moderna. A cobertura começou com a linguagem técnica, 
contida e especulativa de um desastre aéreo acidental. O jornalismo ainda tentava
encaixar o evento na gaveta reconfortante do “previsível”. Então, o segundo avião
atinge a Torre Sul, ao vivo.

Naquele exato milissegundo de incredulidade, a máscara da onisciência jornalística
desmoronou. O âncora deixou de ser a voz inabalável da autoridade que tudo sabe 
e tudo explica, e passou a ser apenas mais uma testemunha perplexa. O gaguejar, 
a perda das palavras, o atordoamento. A ficha caindo ao vivo foi o que validou o
pânico de quem assistia de casa. Naquele momento, não havia roteiro, teleprompter
ou vinheta que desse conta do caos. Havia apenas o tempo do espanto.

Hoje, as redações parecem ter um pavor estrutural desse silêncio e do imprevisto.
E isso acontece por um motivo simples: a digitalização pulverizou o assombro. Como
a informação agora vaza em tempo real, fragmentada em notificações, vídeos curtos
e alertas de WhatsApp, a surpresa morre antes mesmo de ganhar uma narrativa oficial.

Quando o fato histórico finalmente chega à bancada do telejornal ou à capa do portal,
o público já o consumiu, já o debateu e, em muitos casos, já o transformou em meme.
A história deixou de ser uma revelação coletiva ao vivo e se tornou um spoiler contínuo.

É exatamente desse vácuo que nasce a estética da urgência artificial. Para compensar
o fato de que a audiência já sabe o que aconteceu, o noticiário (e aqui incluo também
os portais e criadores de conteúdo) injeta anabolizantes narrativos na informação.
Abusa-se dos letreiros garrafais, dos superlativos e de uma pressa desesperada para
classificar e “explicar” o inominável antes mesmo de a fumaça baixar. A espontaneidade
foi trocada pela urgência de ser o primeiro a emitir uma opinião.

Tenta-se emular a imprevisibilidade do passado porque o público saudosista quer 
sentir de novo o impacto daquele choque. Mas, no fundo, o que procuramos nessas “
edições de colecionador” não é a notícia empacotada de forma mais dramática. O que
sentimos falta é da experiência de parar o país diante de uma mesma tela, unidos
em um silêncio simultâneo.

Hoje, o consumo da realidade é uma experiência isolada. Estamos tão anestesiados
pela avalanche contínua de estímulos que o incontrolável virou apenas mais um conteúdo
que a gente arrasta para cima. O fim do mundo disputa nossos três escassos segundos
de atenção com uma dancinha viral e um anúncio de tênis.

Então, voltamos à ironia da comunicação tentando transformar o ordinário em um evento
épico. Talvez o que precisemos não seja de mais tarjas vermelhas e trilhas sonoras.
Talvez o maior e mais difícil ato de coragem da comunicação contemporânea seja, 
simplesmente, reaprender a ficar em silêncio. Aceitar o tempo do espanto. E entender
que a história, quando realmente acontece, não precisa de filtro de entretenimento.

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