# As promessas da mobilidade urbana de 1996

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- Published: 2020-03-05T21:11:08-03:00
- Author: Josivandro Avelar

Quando eu digo que promessas de fórmulas mágicas e milagrosas para a mobilidade 
urbana não são nenhuma novidade, achei mais uma nos acervos do Ônibus Paraibanos,
quando foi feito um levantamento histórico do transporte através das páginas dos
jornais. E a promessa da vez foi feita há 24 anos atrás, ano de 1996.

Se o pontapé para contar que essas histórias já são velhas foi uma [matéria do Portal Correio](https://portalcorreio.com.br/projeto-onibus-rapido-jp-descartado/),
a nossa história veio de um recorte do jornal Correio da Paraíba – do mesmo grupo
de comunicação. Numa edição de domingo – dessas que chegavam na casa dos assinantes
paraibanos no sábado – 04 de agosto de 1996, a promessa da vez era essa aqui:

![Recorte de jornal com a matéria "Cidade vai ganhar ônibus articulados", com a 
foto de um ônibus com dois vagões. Fim da descrição.](https://i1.wp.com/josivandroavelar.
com.br/wp-content/uploads/2020/03/DSC00333-scaled.jpg?fit=1024%2C672&ssl=1)

E não era uma – foram duas promessas (e no final do texto conto uma terceira promessa
discreta). E lá está ele, o bonde, mais uma vez. Vamos relembrar mais uma daquelas
promessas furadas da mobilidade urbana em João Pessoa.

#### A “obra do milênio”

Na matéria, ilustrada com um ônibus biarticulado de Curitiba que nem em sonho foi
visto aqui – quiçá no Nordeste – menciona-se que um corredor para ônibus articulados
seria “a maior obra de impacto no transporte coletivo que a Prefeitura de João Pessoa
terá de realizar para atender a demanda da população, no início do próximo milênio”.

Vamos chegar mais perto e ler:

![Recorte de jornal com texto falando sobre um corredor de ônibus articulados. Fim
da descrição.](https://i2.wp.com/josivandroavelar.com.br/wp-content/uploads/2020/
03/DSC00332-scaled.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1)

Ressalte-se que o milênio começou em 2001. E estamos em 1996.

O trajeto original do tal ônibus articulado seria entre o Mercado Central e Mangabeira
passando pela Pedro II. Repare que toda promessa que se faz de transporte de alta
capacidade tem a ver com a linha 301, de fato uma das linhas de maior demanda da
capital. No passado foi assim, no presente é, e no futuro vai ser.

A matéria ainda dizia que a obra teria de ser iniciada “no próximo (ano?) na (atual?)
gestão do prefeito (à época), quando – olhem só – “o atual sistema de ônibus terá
sua sobrevida esgotada”. Lembrando que estamos falando do atual sistema de ônibus
da capital, esse mesmo que roda em 2020.

Pronto, podemos voltar para 1996?

#### Crescimento subestimado

A matéria conta sobre a saturação no tráfego do Centro, “onde a maioria das vias
ainda mantém um traçado do século passado – agora retrasado – e já não suporta o
fluxo de automóveis a que é submetida”.

![Recorte de jornal com texto falando sobre a Pedro II como base da implantação 
de um corredor de ônibus. Fim da descrição.](https://i1.wp.com/josivandroavelar.
com.br/wp-content/uploads/2020/03/DSC00331-scaled.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1)

O traçado do Centro e seu trânsito caótico não mudaram muita coisa em 2020. De lá
para cá aconteceram intervenções pontuais, como Parque da Lagoa, Praça Napoleão 
Laureano, o próprio Ponto de Cem Réis no início do milênio, mas nenhum deles alterou
sensivelmente o traçado das vias, a não ser que hoje o trânsito do anel interno 
da Lagoa já não exista mais.

Mas aí a matéria do Correio da Paraíba de 1996 relata que “o corredor de ônibus 
articulados seguiria a tendência de crescimento da cidade para a Zona Sul, onde 
estão alguns dos maiores bairros da cidade, como Mangabeira e Valentina de Figueiredo”.
Sim, a cidade cresceu e acabou indo além desses bairros. Gramame e Colinas do Sul
que o digam.

O Gramame já existia, mas era uma comunidade rural, e o Colinas do Sul era um loteamento
construído naquela área algum tempo depois, coisa de 1998, por aí. Conjuntos habitacionais
e mais loteamentos fizeram aquela área até então isolada “colar” no Valentina. A
cidade agora cresce por ali.

E como não contávamos com isso…

#### E lá vamos nós…

O custo dessas obras seria de R$ 25 milhões em 1996 – este custo, cabe lembrar, 
seria maior que R$ 100 milhões em valores atuais, contando com todos os juros, correção
monetária e inflação e – lá vem ele – abriria caminho para a implantação dos bondes
elétricos na capital.

Vamos chegar mais perto e ler.

![Recorte de jornal com texto falando sobre um bonde elétrico, com o título "STP
implantará bonde elétrico". Fim da descrição.](https://i1.wp.com/josivandroavelar.
com.br/wp-content/uploads/2020/03/DSC00330-scaled.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1)

Aqueles mesmos bondes que nunca saíram do papel nem em 1991, nem em 1996, nem muito
menos em 2011. E a matéria ainda falou que a possibilidade de se alargar as ruas
do Centro da cidade foi descartada por causa dos prédios históricos.

O melhor de mais essa promessa ainda está por vir: o percurso dos tais ônibus.

> Ele utilizará a estrutura básica do corredor de escoamento da avenida D.Pedro 
> II, apenas com o alargamento de alguns trechos e pavimentação de muitas ruas nos
> bairros dos Bancários, Água Fria e Mangabeira. O projeto será a base da implantação
> dos bondes.
> Matéria do jornal Correio da Paraíba de 4 de agosto de 1996

O mais próximo que a Pedro II chegou de um corredor de ônibus é uma faixa exclusiva
que se estende da esquina da Av. Tabajaras até o Jardim Botânico, implantada há 
pouco menos de três anos e até hoje em funcionamento. Ocorreram obras em 2006 na
Via Expressa Padre Zé, na UFPB, com uma “baia” de ônibus, mas nada além disso.

#### Sigamos…

> As obras entre o Mercado Central e a estação final começarão com a construção 
> de uma grande estação de passageiros. Na Av. D.Pedro II, acontecerá o alargamento
> da pista, com a criação de uma via exclusiva para os ônibus.
>  Matéria do jornal Correio da Paraíba de 4 de agosto de 1996

Só lembrando: a atual faixa de ônibus da Pedro II é pintada – a via atualmente tem
três faixas, as duas de carros e a de ônibus onde eu mencionei anteriormente. E 
bem, estação no Mercado Central é algo que já apareceu em outras promessas furadas
que já pesquisei.

#### Sigamos mais uma vez…

> Depois da ladeira da entrada da sede do Ibama, a via exclusiva dos ônibus articulados
> se transformará num pequeno túnel até o conjunto Castelo Branco III, ao invés 
> de seguir o atual trajeto dos coletivos que servem a Zona Sul da cidade, eles 
> contornarão todo Campus da UFPB e atingirão o Conjunto dos Bancários para utilizar
> a rua Waldemar Accioly, no interior do bairro.
>  Matéria do jornal Correio da Paraíba de 4 de agosto de 1996

Para situar: a rua Waldemar Accioly, para quem não sabe, é as “Três Ruas”, que até
hoje não é ligada a via de contorno da UFPB. Nem essa obra de 2006 fez isso. A ladeira
do Ibama já passou por obras de alargamento – as pistas passaram de duas para três
faixas -, e bem, já saturou.

A parte do “pequeno túnel” foi a melhor parte da promessa. Nem eu entendi. Segundo
o jornal, a escolha se deu para desafogar o tráfego na principal dos Bancários, 
passando por ruas paralelas até a Estrada de Mangabeira – nem de Hilton Souto Maior
chamavam na época, mas o nome é esse. Mas quem pega o 3510/5310 sabe muito bem que
nem de longe as vias são usadas como alternativa de trânsito, embora houvesse a 
possibilidade.

O retorno para o Centro se daria onde atualmente se dá a volta do corredor da Pedro
II (Nossa Senhora de Fátima e Camilo de Holanda) até a Lagoa, com possibilidade 
de utilizar a Beira Rio.

O tempo de vida útil do corredor? 15 anos. Se existisse, esse tempo terminaria em
2011.

#### Olha quem está de volta na história: o bonde

E no final deste tópico, vem acompanhada de mais uma promessa furada até hoje nunca
cumprida. Então sigam o fio e descubram qual é a que nem eu esperava. Mas antes,
vamos falar daquele bonde que reapareceu nessa matéria.

Sim, ele mesmo. Quem está de volta em mais essa promessa furada da mobilidade urbana
é o tal “[bonde de 1991](https://josivandroavelar.com.br/tem-bonde-na-linha-so-que-nao/)“.
O que ia custar 16 milhões de cruzeiros à época. Agora em 1996, o custo do projeto
seria de R$ 120 milhões. Imagine isso nas cifras de hoje. E se você ler a matéria
do bonde, vai ver que a história contada é a mesma.

> [Tem bonde na linha, só que não](https://josivandroavelar.com.br/tem-bonde-na-linha-so-que-nao/)

E então: o itinerário seria esse mesmo do tópico acima, que os bondes teriam capacidade
de 60 passageiros sentados, com velocidade média de 65 Km/h, comunicação por rádio
entre todas as composições, permitindo o socorro mecânico imediato, essas coisas…
Que nunca ninguém viu.

Outra promessa furada vem no final da matéria: a CBTU – Companhia Brasileira de 
Trens Urbanos – começaria a implantar a integração entre trens e ônibus até o próximo
ano. O próximo ano era 1997. E bem, nem preciso falar se existe algum tipo de integração
entre ônibus e trens né? É porque não tem. E ainda com a possibilidade de “até conseguir
reduzir a tarifa média dos serviços”! Só lembrando que a tarifa dos trens vai subir
para dois reais. Sem mais.

E ainda contrataram uma empresa para estudar a tal integração e o planejamento dos
investimentos no transporte coletivo em João Pessoa, Bayeux, Cabedelo e Santa Rita.
O que se viu até hoje foi pouca coisa.

#### E no que chegamos mais perto disso?

Eu vou resumir em uma foto em que chegamos mais perto de um “corredor de ônibus 
articulados” em João Pessoa:

![Foto de um ônibus articulado de João Pessoa, na linha 301-Mangabeira/Pedro II.
Fim da descrição.](https://i0.wp.com/josivandroavelar.com.br/wp-content/uploads/
2020/03/%C3%B4nibus-paraibanos-fotogr%C3%A1fico.png?resize=1024%2C682&ssl=1)

O mais perto que chegamos de um ônibus articulado foi isso.

Sim, o mais perto que chegamos foi isso. E por bem dizer, nem tem mais. Nem foi 
algo, posso dizer assim, planejado. Foi como foi. E ontem à noite rodou um articulado
na linha 2300-Circular, em que parte do itinerário é via Pedro II até Mangabeira,
passando no Valentina. Mas só por ontem à noite.

No mais, chegamos a 2020 e o que temos ainda são ônibus comuns de um sistema que
se diz saturado nesses mesmos roteiros. Perspectiva de mudanças, poucas ou nenhuma.
E como se sabe, é preciso ação, porque planejamento, como visto, já fizeram demais.

Por isso que eu digo e volto a dizer: fique com o pé atrás nas promessas eleitorais
deste ano. Porque com certeza, coisas como essa vão voltar, vão fazer as mesmas 
especulações, lançar projetos que micam como o do BRT, e no fim lá tô eu de novo
escrevendo sobre promessas furadas da mobilidade urbana.

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