# 38 anos: Eu estou aqui. E sou parte disso

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- Published: 2026-10-29T23:55:00-03:00
- Author: Josivandro Avelar

Esta série poderia ser apenas um único texto para celebrar os 38 anos que completei
no dia 24 de setembro. Era uma quinta-feira, justamente o dia da semana em que escrevo
crônicas sobre a cidade. Mas, no meio de tantas reflexões, acabei percebendo que
havia muito mais a dizer do que caberia em uma única publicação.

Comecei pensando na cidade onde nasci, na cidade onde cresci, na cidade que quero
ver crescer e naquela que não quero viver. Quatro cidades que, na verdade, são uma
só: João Pessoa.

E, no fim, me peguei pensando em como eu não seria apenas um mero figurante dessa
cidade.

Afinal de contas, quando você constrói um ecossistema de comunicação independente,
com sua própria linha editorial, suas ideias, seus projetos e seu mundo, de certa
forma você também está construindo uma parte desse lugar. Você passa a interferir
na maneira como ele é percebido, contado e discutido.

A cidade deixa de ser apenas o cenário onde você vive. Ela também passa a fazer 
parte daquilo que você produz.

Mas existe uma história por trás disso.

Quem abriu as portas para você depois que saiu da faculdade? Quem garantiria que
alguém que veio de onde você veio teria oportunidades facilmente? Quem estaria disposto
a apostar nas suas ideias antes que elas tivessem algum reconhecimento?

Porque não basta ter capacidade quando as oportunidades não chegam.

E essa é uma contradição que merece ser discutida: muitas vezes, uma cidade que 
tanto fala sobre desenvolvimento, criatividade e empreendedorismo não consegue oferecer
espaço para que pessoas diferentes construam alguma coisa. Não necessariamente por
falta de talento, mas porque ainda existe uma lógica em que status, sobrenome, relacionamentos
e reconhecimento prévio parecem valer mais do que aquilo que alguém efetivamente
sabe fazer.

Você pode ter ideias, disposição, repertório e capacidade de realizar. Mas, se não
estiver nos círculos considerados importantes, talvez precise esperar muito mais
do que deveria.

E não estou falando de quem veio de fora. Estou falando também de quem nasceu aqui,
cresceu aqui e, mesmo assim, precisou descobrir como entrar pelas portas que pareciam
reservadas a outras pessoas.

Porque existe uma diferença entre pertencer geograficamente a uma cidade e ter espaço
para construir alguma coisa nela.

Eu poderia ter desanimado diante disso. Poderia ter esperado que alguém reconhecesse
minha capacidade, que uma oportunidade aparecesse ou que alguma porta finalmente
se abrisse.

Mas decidi construir as minhas.

Foi assim que comecei a desenhar meu próprio caminho na comunicação, trabalhando
com sites, redação, redes sociais, identidade visual e tudo aquilo que me permitisse
transformar ideias em projetos concretos.

Construí meu espaço, minha presença e minha maneira de trabalhar. Criei uma linha
editorial, desenvolvi projetos próprios e fiz da independência uma necessidade que
acabou se transformando em escolha.

Não foi porque o caminho estava pronto. Foi justamente porque não estava.

E existe uma coisa que aprendi nesse processo: a melhor maneira de provar sua capacidade
é mostrando aquilo que você sabe fazer de melhor.

Não adianta esperar que alguém lhe conceda importância para começar a construir 
alguma coisa. Às vezes, é preciso começar mesmo sem plateia, sem convite e sem garantia
de reconhecimento.

Foi o que fiz.

E, de alguma maneira, isso também mudou minha relação com João Pessoa.

Passei a olhar para a cidade não apenas como alguém que nasceu nela, mas como alguém
que produz sobre ela, observa suas transformações, questiona suas escolhas e imagina
outras possibilidades.

É por isso que me incomoda tanto quando a cidade parece pertencer a poucos.

Quando determinados sobrenomes aparecem nas placas e nas homenagens como se a história
tivesse sido escrita exclusivamente por eles. Quando algumas pessoas parecem ter
mais legitimidade para decidir os rumos da cidade simplesmente porque chegaram antes,
herdaram posições ou ocupam espaços de influência.

Reconhecer quem veio antes não significa entregar a essas pessoas o direito de decidir
quem pode vir depois.

A cidade não é uma propriedade familiar.

E não é preciso ter um sobrenome importante para participar da sua construção.

Talvez seja justamente isso que eu queira dizer ao completar 38 anos: não estou 
aqui esperando que alguém me autorize a fazer parte.

Estou aqui porque nasci aqui, porque cresci aqui, porque trabalho aqui, porque crio
aqui e porque continuo acreditando que este lugar pode ser muito mais do que aquilo
que algumas pessoas decidiram que ele deveria ser.

Não preciso concordar com tudo o que acontece na cidade para gostar dela. Não preciso
aceitar suas limitações para reconhecer que faço parte dela. E não preciso abandonar
o lugar onde construí minha história para reivindicar o direito de imaginar outro
futuro.

Afinal, se a cidade é feita de pessoas, também é feita daquilo que essas pessoas
conseguem realizar.

Das ideias que colocam em circulação, dos negócios que abrem, das histórias que 
contam, dos espaços que ocupam e das oportunidades que criam para outras pessoas.

Eu não quero ser lembrado apenas por ter vivido em João Pessoa. Quero que aquilo
que construo também tenha alguma coisa a dizer sobre ela.

E isso não depende de uma placa com meu nome, de um sobrenome reconhecido ou de 
uma autorização concedida por quem acredita ter chegado primeiro.

Depende de continuar fazendo.

**Eu estou aqui. E sou parte disso.**

Não sou figurante da história de uma cidade que também é minha.

Não preciso pedir licença para imaginar o futuro dela.

Aos 38 anos, continuo abrindo portas. As minhas e, quem sabe, algumas para quem 
também descobriu que não precisa esperar um convite para começar.

Porque João Pessoa não pode ser apenas a cidade de quem já tem lugar garantido.

Ela também precisa ser a cidade de quem ainda está construindo o seu.

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